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Testemunha e Testemunho

  • Foto do escritor: Bê Sant'Anna
    Bê Sant'Anna
  • há 1 hora
  • 3 min de leitura

testemunho-caminho

Sabe quando você reencontra alguém que fez parte da sua vida em algum momento Alguém do ginásio, uma pessoa que frequentava o clube quando menino, algum vizinho de infância. Não precisa nem haver abraço: bastam três segundos e a conta já está feita. Que caminhos tomamos? Que rumo cada um seguiu? Quais foram as nossas escolhas? Onde ele está hoje e onde você está?


Ninguém pede pra você avaliar isso. Mas essa reflexão é automática. Você testemunha o tempo e pode dar seu testemunho sobre suas escolhas. Onde é que testemunha e testemunho se encontram?


Foi exatamente o que pensei, há alguns dias, num dōjō do outro lado do oceano.


Comecei o karatê aos nove anos. Naquela época estavam Daniel Valente e Reinaldo Yama, hoje Reinaldo quem leva consigo o nome da academia do nosso sensei, a Tenri Dojo. Fomos faixa verde juntos - a graduação em que o corpo enfim começa a entender aquilo que a cabeça já sabia de cor.


Quatro décadas depois, os três outra vez no mesmo tatame. E eu ainda apanhando correção de postura dos meus colegas de faixa verde, hoje mestres e amigos.


Foi então que a conta se fez.


Vi que Daniel se especializou a ponto de hoje treinar as forças especiais do exército do Catar. Vi que ele e Reinaldo seguiram sem parar, muito mais graduados que eu no karatê, e ainda graduados no jiu-jitsu. Vi Lucas Valente, sobrinho do Daniel, campeão mundial de MMA - um homem que nasceu depois de tudo aquilo já ter começado e hoje carrega consigo o saber que seu tio plantou e regou durante toda a vida. E vi, no mesmo relance, os anos em que eu não treinei, porque a vida tomou um rumo e o rumo não passava necessariamente pelo dōjō.


Ninguém disse nada. Aliás, os dois me acolheram como o amigo e colega de 40 anos de história. A aritmética foi toda minha. O testemunho foi todo meu.


Ao final do treino, como no final de todos os treinos desde sempre, nos sentamos em seiza e recitamos o Dōjō Kun. Cinco frases:


Esforçar-se na formação da personalidade. Seguir o caminho da sinceridade. Cultivar o espírito de empenho. Dar importância à cortesia. Reprimir atos brutais.


Ninguém “explica” o Dōjō Kun a uma criança de nove anos. Você apenas repete, em voz alta, junto com os outros, milhares de vezes ao longo da vida. E leva décadas para perceber a inversão: não é você que avalia aquelas frases. São elas que avaliam você, treino após treino, desde antes de você ter a menor ideia do que elas queriam dizer. Primeiro, essas frases são testemunhas do que cresce em cada um. Depois, é você quem dá o testemunho do que esse saber amadureceu em você.


O quinto preceito é o que mais me interessa hoje. Em japonês, kekki no yū wo imashimuru koto: conter a coragem impetuosa, o ímpeto do sangue quente. Ele não fala de violência contra os outros. Fala do intervalo entre o impulso e o ato.


Viver no piloto automático é viver sem esse intervalo. O estímulo chega e a reação sai, sem que ninguém em casa tenha sido consultado. É ali, nesse milímetro de tempo que o karatê passa a vida inteira alargando, que mora a testemunha. Em grego, testemunha se diz mártys - de onde vem mártir. Testemunhar sempre custou alguma coisa.


Aqui eu poderia mentir para você e dizer que olhei aquele tatame com serenidade, de um lugar acima das comparações.


Não foi isso. A comparação veio. Vi as graduações, vi o jiu-jitsu, vi outra vez os anos em que eu não treinei. A conta se fez sozinha, como se faz em todo mundo. O que mudou não foi a ausência do julgamento - foi que ele não me levou junto.


Esse lugar de olhar eu conheci a pé, entre o Vaticano e Santiago de Compostela: dois mil e quinhentos quilômetros, oitenta e oito dias. A testemunha não é quem não julga. É quem vê o julgamento nascer e não o segue. E pode dar seu testemunho do que foram as marcas do tempo.


E há uma última coisa, que esteve o tempo todo escrita na porta.


O  de karate-dō é 道: caminho. A mesma palavra que eu ando até Santiago. Dōjō, aliás, é 道場 - lugar do caminho. Onde se aprende. Eu aprendi que esse lugar de aprendizado não precisa ser necessariamente um lugar físico. Daniel e Reinaldo levaram o caminho para o corpo. Eu levei para os valores e para a estrada. A divergência que a aritmética contabilizou como perda é, vista de cima, um caminho só - com superfícies diferentes.


Eu nunca parei de treinar. Eu só mudei de tatame.


Um dia você vai reencontrar alguém que foi testemunha do seu tempo. A conta vai se fazer sozinha - ela sempre se faz.


Você não escolhe a conta. Escolhe o testemunho.


Caminhamos juntos.

 
 
 

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