Pausa

Quando foi a última vez que você não fez nada?
Calma, respira que você vai entender o que efetivamente eu estou perguntando. Para começar, eu não estou me referindo àquele tempo jogado no sofá, com a televisão ligada. Ou rolando a tela no celular, muito menos. O que eu quero saber é outra coisa: quando foi a última vez que você não fez nada, e de propósito?
Se você levou mais de três segundos para responder, espera um pouco. Acho que vai gostar do que vou compartilhar contigo, depois do que aconteceu comigo nas últimas semanas, e que tem me feito refletir.
Comigo não foi pausa. Foi interrupção.
Passei um tempo no Brasil - exatamente 56 dias - e saí completamente da minha rotina. Sem aulas, sem a minha rotina de escrita da newsletter (muito do que publiquei estava “na esteira”, já redigido), sem os horários que organizam os meus dias, a minha rotina. E eu poderia dizer aqui que foi uma bela pausa. Ou uma espécie de férias. Mas seria mentira.
Porque agora, de volta a Portugal, estou tendo (muita) dificuldade de retomar o passo. E foi tentando entender essa dificuldade que eu cheguei nisto:
Pausa não é a mesma coisa que interrupção. E a diferença fundamental é que a pausa precisa de um ritmo do qual pausar. Sem ritmo, não há pausa. Há o que podemos chamar “deriva”.
O músico sabe disso melhor do que ninguém. A pausa, na partitura, é escrita. Ela tem símbolo próprio, tem duração exata, ocupa espaço no compasso. A pausa não é ausência de música. É música. Mas ela só existe porque existe um compasso em volta dela. Um ritmo e uma cadência que ela evidencia e marca, de certa forma.
Tire o compasso e não sobra pausa. Sobra silêncio qualquer.
Claro, fui procurar as raízes, e encontrei três boas aqui, para compartilhar com você.
Pausa vem do grego paúsis, de paúein: fazer cessar. E da mesma raiz latina, pausare, vieram pousar, pouso, repouso - e pousada. Veja que interessante. Quer dizer que pausar e pousar são a mesma palavra. Eu, que escrevo sobre peregrinos, quase caí da cadeira. A pausa é a pousada do dia. E repare: o pássaro que pousa não deixou de ser pássaro. Ele está pousado, não deixa de ser ele mesmo.
Ócio vem do latim otium. E o contrário de otium, para o romano, era neg-otium. Negócio. Negócio é, literalmente, a negação do ócio. Essa eu já me lembrava, inclusive, mas é importante neste contexto.
Porque pense no tamanho disso. Na cabeça romana, o estado natural era o ócio - e o trabalho era o que se definia pela falta dele. Nós invertemos a equação inteira. Hoje é o ócio que precisa se justificar como ausência de trabalho. Viramos a ideia do avesso e achamos que está tudo certo…
Se ainda pesquisarmos a palavra rotina, vamos descobrir que ela vem do francês, route: rota, caminho. E route vem do latim rupta via - a via que se rompe, ou seja, a estrada aberta à força no meio do mato. Ou seja: rotina é o caminho que alguém já abriu. Por onde se anda sem gastar energia decidindo para onde ir.
E aqui eu preciso confessar uma coisa. A gente que caminha adora a palavra rota e muitas vezes despreza a palavra rotina. Só que são a mesma palavra. No entanto, quem já fez o Caminho sabe: a vida do peregrino é a rotina mais rígida (e simples) que existe. Acorda quase na mesma hora. Arruma a mochila na mesma ordem, com as mesmas coisas nos mesmos bolsos. Anda, come, lava a roupa, dorme. Dia após dia, sem novidade nenhuma. E a gente descobre e chama isso de “liberdade”.
Por quê? Porque a rotina resolve as coisas pequenas para que sobre energia para as grandes. Quem não precisa decidir onde vai colocar a lanterna tem a cabeça livre para reparar na paisagem - na interna e na externa. Os ritos diários não são a prisão do passo. São a âncora de cada um deles.
Foi isso que me faltou no Brasil. Não me faltou descanso. Me faltou compasso.
Eu sei que as coisas têm um tempo. Aliás, no taoísmo existe um conceito que costuma ser mal traduzido: wu wei. Traduzem quase sempre por "não-fazer", e aí vira preguiça com desculpa de filosofia oriental. Mas não é. O sentido é bem mais interessante. Wu wei é não forçar. É a escolha da não ação como ação, como atitude. É agir sem contrariar o curso das coisas. A água não decide contornar a pedra - ela contorna. O Tao Te Ching diz que se vai diminuindo e diminuindo até chegar ao não-forçar, e que pelo não-forçar nada fica por fazer.
Domenico De Masi, o sociólogo italiano do ócio criativo, chegou perto disso por outro caminho. A tese dele não é que a gente precisa descansar para render mais. É que o tempo sem função é onde a ideia nasce. O ócio não é o intervalo do trabalho. É o lugar onde o trabalho é concebido. Junte as duas coisas e você tem o que eu venho tentando aprender: não dá para apressar o que está sendo gerado.
Você sabia que o instrumento que viaja desafina?
Não por defeito. Um violino é feito de madeira, e madeira responde ao ar, à umidade, à altitude. Um instrumento que faz uma grande viagem chega desafinado, e ninguém diz que ele quebrou. O músico compreende que ele precisa ser afinado.
É exatamente o que estou tentando fazer agora. De volta a Portugal, preciso sintonizar de novo o que devo conduzir - no meu caminho e no Caminho do Eu Caminho. Estudar por dentro e por fora. Escutar o que precisa ser dito antes de dizer. E afinar, na maioria das vezes, é uma tarefa que exige silêncio. Não dá para afinar um instrumento no meio do barulho. Talvez seja essa a função da pausa. Reafinar o instrumento.
Talvez tenha percebido que eu não perguntei quando você descansou. Perguntei quando você parou de propósito. E se a resposta demorou, talvez o que esteja faltando não seja a pausa.
Talvez seja a compreensão do ritmo necessário, de onde ela sairia.
(Na foto, eu visitando a Cidade dos Meninos durante a pausa.)



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