Fronteira

Elefante rosa.
Pronto. Acabei de colocar um elefante rosa dentro de você sem que fosse consultado. Simples assim. Duas palavras que eu escrevi na minha tela e que formaram, na sua, um elefante só seu - mesmo sendo meu. Eu só abri a porta do zoológico. Quem trouxe o bicho para a nossa sala foi você.
Agora a parte que interessa. Não existe elefante rosa nenhum. Nunca existiu. E mesmo assim você viu um. Daí vem a pergunta: de que lado da fronteira ele está? Se um elefante inteiro entrou em você sem alfândega, é porque a fronteira difícil não é aquela entre mim e você.
A fronteira difícil passa dentro de você. É a que separa a palavra que chegou da coisa que você construiu com ela. Duas palavras minhas, um bicho inteiro seu. E entre uma coisa e outra existe uma linha que ninguém consegue apontar no mapa. Essa é a mais complexa de todas, e por um motivo simples: as outras fronteiras a gente atravessa. Essa a gente não atravessa, porque a gente é ela. Somos feitos exatamente do espaço entre a palavra e o que evocamos a partir dela.
Fui procurar a raiz, como sempre. E fronteira vem de fronte — testa, rosto. Fronteira é o lugar onde um território dá de cara com aquilo que não é ele. Da mesma raiz vêm afrontar, confrontar, enfrentar. E há outra que me pegou. Limen, em latim, é a soleira da porta, o batente. De limen vem limiar. Vem preliminar, que é o que acontece antes da soleira. E vem eliminar: ex mais limen. Literalmente, pôr para fora da porta.
Toda vez que a gente elimina alguma coisa da vida, está empurrando aquilo para o outro lado de um batente. Já até falamos sobre isso quando escrevi sobre o limiar. Mas o foco hoje são as fronteiras que não têm placa.
Talvez você não tenha notado. Mas ninguém avisa o dia em que o bebê vira criança. Não há aviso, não há festa, não há registro. Ninguém aponta a tarde exata em que a criança vira adolescente — os pais só percebem tempos depois, quando já não dá para voltar. Ninguém, por falar nisso, carimba a entrada na vida adulta. Depois vem aquela fronteira que parece que não existe, ou que a gente finge que não existe, a do adulto para o velho, e que quase sempre é anunciada por outra pessoa, num comentário sem maldade.
E vem a última, para a qual não existe mapa, nem língua, nem quem tenha voltado para contar. A fronteira entre o que somos e o Cosmos. Essa tem movido minhas reflexões ultimamente. Note que todas essas são atravessadas sem placa. Sem anúncio. A gente só descobre que passou quando se conscientiza que já está do outro lado. Será assim no Cosmos?
Tem outra que também não sai da minha cabeça. A fronteira do menino para o homem. Achei durante muito tempo que fosse a idade. Depois achei que fosse o trabalho, a conta pra pagar, a casa própria, o casamento. Mas com 14 comecei a trabalhar, com 29 comprei meu primeiro apartamento e me casei pela primeira vez. E não sei se foi aí. Hoje eu desconfio de outra coisa. Desconfio que eu só atravessei mesmo essa fronteira quando virei pai. Quando existiu, no mundo, uma pessoa cuja vida dependia de eu ser eu.
Quase encontro a palavra ontem no meio da frONTEira. Mas foi hoje que acordei. Quase sempre o passado me parece incompleto.
O texto terminou aqui. Mas não quero ir embora sem dizer neste epílogo que existe uma fronteira que quase ninguém tem coragem de atravessar, que é a que separa o sonho do real. A gente aprende cedo a manter os dois territórios bem afastados. De um lado o que é possível, do outro o que a gente imagina antes de dormir. E aprende também (a fórceps) que gente séria não confunde as duas coisas.
Mas eu vivo de dizer o contrário. Porque o Caminho é exatamente isso: um sonho onde dá para pisar. Um sonho com pegada, com bolha no pé, com chuva molhando de verdade. Alguém imaginou aquilo, um dia, e depois foi lá e pôs a planta do pé em cima. E aí eu percebo que o Caminho não atravessa uma fronteira. O Caminho é a fronteira.
Travessia talvez seja o nome que a gente dá para a fronteira que virou lugar.
Sabe? Toda casa que teve criança tem um batente de porta com riscos a lápis. Um traço, uma data, uma idade, um nome. Na casa dos meus pais é a parede do escritório.
É a única fronteira que a gente marca de propósito. E marca justamente porque sabe que não vai perceber quando ela for atravessada.
Um dia os traços param. Ninguém decide parar. Simplesmente param.
E aí você descobre uma coisa: o último risco daquele batente foi feito num dia qualquer, sem cerimônia nenhuma, sem ninguém saber que era o último.
Todas as fronteiras que importam são assim.



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