Sou do Tamanho do Meu Passo
- Bê Sant'Anna
- 6 de jun.
- 3 min de leitura

Voltei nessa sexta, novamente, do Caminho de Santiago.
Fui fazer um Caminho que para muitos é curto, para outros é tudo o que conseguem, o Caminho e as experiências têm destas coisas. Para mim, que já caminhei mais de 6.000 km de grandes peregrinações, caminhar cerca de 115 km parece pouquíssimo. Ainda que tenha cumprido esta peregrinação em 5 dias.
É fato que a grande maioria que resolve fazer o Caminho Francês faz esta última etapa, porque é a etapa que, sozinha, já garante a Compostelana, o documento de comprovação da peregrinação, ou seja, o selo oficial que estampa: esse aí é peregrino.
No entanto, isso pode querer dizer tudo e pode também dizer nada. Há quem faça desde Saint-Jean Pied de Port, na França, e que garganteia ser peregrino, e que defende a peregrinação raiz, e que condena a peregrinação “nutella” e que fala que se não carregar mochila não vale, e aí por diante - e vai ficar fazendo o Caminho de Santiago a vida inteira, e julgando os peregrinos a vida inteira, sem saber patavinas o que está fazendo.
Sinto muito, não queria entrar em polêmica aqui neste texto, mas preciso ser claro.
Não são os quilômetros, o peso da mochila, a simplicidade do albergue, o calçado que usa, nada disso é o que define um peregrino. Pasme: vou dizer agora que nem o fato dele ser católico é o essencial para a definição da peregrinação.
Sabe porquê?
O Caminho é Uno. E paradoxalmente, o Caminho é único.
Uno em sua dimensão coletiva. Uno em sua essência divina e agregadora, sem preconceitos, amarras, dogmas ou regras. Ou você não estudou a Palavra de Jesus? Ouvi outro dia, em um dos grupos que entrei a convite para ajudar outros peregrinos, que um padre - leu direito? Um PADRE disse que o Paulo Coelho fez um desserviço ao Caminho com o Diário de Um Mago - porque isso foi o primeiro passo para “destruir o Caminho”.
Não preciso nem argumentar. Basta perguntar se Jesus seria contra turistas, atletas, curiosos, infiéis, perdidos - ou o que quer que seja - que resolvessem fazer o Caminho… E completo com a seguinte observação: ao longo de 17 anos, vi muitos agnósticos, descrentes, materialistas, curiosos e turistas fazendo o Caminho e depois disso sendo tocados pela Palavra - em suas diversas formas.
O que me faz crer que uma das principais formas de propaganda da filosofia e ideologia Cristã é mesmo pela experiência - e o Caminho é experiência pura: analogia e vivência.
Ainda poderia discorrer longamente pelo tema, mas não vou. Hoje não.
Quero ficar com o principal: deitar na cama da minha filha de 6 anos depois de estar 6 dias afastado dela, e fazê-la dormir passando as mãos nas costas dela, como meu pai fazia ao me acordar, quando a relação de tamanho entre as mãos dele e as minhas costas eram mais ou menos as mesmas.
É por isso que quando penso nas mãos do meu pai, a relação afetiva que ficou sempre coloca a escala dos dedos de pianista muito maiores do que efetivamente são.
Os pais e os peregrinos são bem maiores conceitualmente do que em seu tamanho real. Quando nos colocarmos em nossa medida correta, as filhas e os Caminhos vão ser sempre maiores que a gente, não importa o quanto tentamos fazer por elas ou quantos quilômetros percorremos.
Nossa importância é sempre maior na lembrança e na expectativa. Sou do tamanho do meu passo.



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