Sombra

A sombra é o silêncio da luz.
Quanto mais iluminado estou, mais sombra faço.
Parece que originalmente o latim umbra foi o responsável pelo termo que se tornou sombra, com o prefixo sub-, "sob" — estar debaixo dela. A princípio, designava o espaço ou a frescura do lugar coberto, do espaço da sombra. Na evolução pras línguas românicas, tanto no português quanto no espanhol, virou sombra. E o aspecto mitológico que liga umbra aos espíritos e ao escuro — em latim a palavra também nomeava a alma dos mortos — deve ter gerado o aspecto "sombrio" do conceito.
Mas antes disso, é o que caminha ao nosso lado sem parar. E digo isso, sem pensar em qualquer aspecto sombrio — no sentido pejorativo que a palavra historicamente tem.
É interessante pensar que a sombra nos lembra do lado oculto, e daí a gente coloca num pacote tanto os medos, quanto os desejos, o que rejeitamos em nós ou o que uma hora ou outra aceitamos. A sombra é o cachorrinho que não conseguimos abraçar. Um que não necessariamente balança o rabinho.
A chave da sombra se encontra na projeção. E, pra mim, o mais curioso é pensar no aspecto paradoxal que reside materialmente no conceito de sombra: quanto mais luz, mais sombra. Me lembro do Thich Nhat Hanh falando que não há lótus sem lama. Não se elimina um sem eliminar o outro. Penso na sombra como penso no silêncio.
A sombra em si parece não existir. Isso é outra coisa interessante. Ela só é, manifesta. Ou seja, ela depende de uma condição para existir e é justamente a condição contrária, a luz. Pense bem: talvez o silêncio não exista. Ele é exclusivamente a ausência de algo, como a sombra é a ausência de algo. Nessa perspectiva, podemos pensar que a indiferença é a sombra do amor, e também não existe, a não ser que haja a manifestação da "sombra" do amor.
Caramba, esse texto tá ficando cabeça. E muita gente que tá lendo agora achou estranho, porque eu contrapus não o ódio com o amor, mas sim, a indiferença. Sabe o que é? É que o ódio não é falta de amor. O ódio é um amor ferido.
Caminhando nesse sentido podemos pensar então no medo ou na maldade como a luz ferida? Porque, matematicamente, alguém aí que está lendo pode propor o seguinte axioma: a indiferença está para o ódio, assim como a sombra está para o medo ou a maldade…
Pare. Isso está fugindo ao controle. Melhor voltar, e pensar na parte original e fresca do conceito: a sombra da árvore, por exemplo. Aliás, invariavelmente isso me faz lembrar de Rubem Alves, quando fala de um poema. Parafraseando, ele dizia que o poema é como uma árvore. A gente não explica uma árvore. A gente se deita à sua sombra.
Por isso, a sombra que me acompanha a cada passo é a projeção que faço do meu existir, somente. Como se meu existir e o meu passar pudesse produzir algum tipo de frescor no mundo onde me projeto.



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