Caber

Caber vem do latim capere: tomar, agarrar, conter.
É uma raiz generosa. Dela vêm capaz e capacidade — quem cabe, cabe porque contém. Vem conceber, cum capere, tomar junto. Vem receber, re capere, tomar de volta. E vem perceber, per capere, tomar através.
Guarde essa última, porque ela volta no fim.
Preciso viver experiências para escrever aqui com tanta constância. E me conectar com o que foi vivido durante os meus 53 anos. Por sorte, sempre fui uma pessoa observadora. E me fiz um estudante de mim mesmo e do outro, mesmo antes de estudar filosofia oriental, ocidental, ciências da linguagem, cultura, meditação, enfim, todos os assuntos que trato aqui.
Não sou um poço de conhecimento. Sou uma ponte. Simplesmente me treinei como professor e como construtor de pontes. Uno casos que vivi e de que tenho conhecimento, ideias minhas e dos outros, dos outros e de outros outros, estudo. E tenho o benefício das experiências de meio século para me ajudarem.
Pode parecer de fácil compreensão, mas não é: cruzar um país a pé é diferente de conhecê-lo em uma viagem comum. Pegar um avião ou um ônibus e descer em vários pontos turísticos da Itália não vai fazer você conhecer a Itália como atravessá-la a pé. Fiz isso com a Itália, com a França, com a Espanha, com Portugal. As culturas ibérica e românica estão muito mais absorvidas em minha pele do que eu poderia supor. Suor.
Caminhar nos leva para o biorritmo da terra, o tempo de Kairós, a natureza das coisas e das pessoas. A cadência e o silêncio nos embalam a ponto de misturar o fluxo de nossa existência com o fluxo da existência das coisas, todas. E isso não é viagem da minha cabeça, por mais que possa parecer. Eu sei. Eu andei por 88 dias mais de 2.500 km.
Três milhões e duzentos e cinquenta mil passos não são pouca coisa. Sim, já caminhei mais que isso: até agora, mais de 6.000 km. Isso significa tempo demais "sentado" nos próprios ísquios — os ossos em que a gente se senta — enquanto o corpo processa ideias, pensamentos, impressões, sentimentos.
É um troço curioso: o osso de sentar sustentando alguém que não para de andar.
Pensar em um assunto enquanto o seu dia a dia corre, quando você não tem tempo, é uma coisa. Pensar no mesmo assunto quando você está exclusivamente caminhando é outra totalmente diferente. Isso significa repertório analítico. Foi assim que eu tomei o que eu sei. Não estudei a Itália. Atravessei a Itália com todos os meus poros.
Mas por que estou dizendo isso? Porque caminho de mãos dadas. É o meu objetivo. E passar horas por semana burilando palavras, linhas e parágrafos numa página para um leitor que muitas vezes não conheço precisa ter sentido. Precisamos de sentido para viver.
Quando quero que pessoas mudem, cresçam, caminhem em busca de uma transformação ou metamorfose pessoal, penso mesmo na mudança do mundo. O slogan do Podcast Eu Caminho, que está no ar desde 2020, nos fala da busca pelo melhor que há em cada um de nós, para que isso se traduza em reflexo no entorno. Para mudar o mundo, mudamos nós mesmos. O que é o mundo senão nossa percepção sobre ele?
Acontece que eu já falei aqui sobre a diferença entre o outro e o próximo. O outro pressupõe diferença, distância, alguém que não está onde eu estou. O próximo pressupõe proximidade — alguém que está na mesma dificuldade que eu. E eu venho tentando, há oito anos, transformar em próximos os outros do meu entorno. Com resultado modesto.
Vou dar um exemplo. Quando me mudei para Famalicão, procurei alguém da imprensa local. Não mandei só uma mensagem de apresentação com currículo e experiência: escrevi um artigo, de graça, para que notassem o meu valor. A resposta veio dois anos depois. Abriram a porta, o artigo foi publicado — e o convite para um café ficou sem resposta.
Repare no que aconteceu, porque eu demorei a reparar. O artigo foi recebido. O café, não. O que eu tinha de útil passou; o resto ficou na porta.
E a parte que me incomoda de verdade é esta: eu me apresentei com currículo. Quem se apresenta com currículo está se oferecendo como um outro útil, não como um próximo. Talvez a frustração não seja toda do entorno. Talvez eu tenha pedido café com a mão errada.
Tenho encontrado muita gente que responde não antes de responder sim. E ando me pegando respondendo assim também.
Então acho que estou precisando mudar a mim mesmo.
E aqui eu volto ao verbo do começo, porque ele guarda as duas coisas. Perceber é per capere: tomar através. Caber é capere: conter. Perceber o mundo e caber nele são, na origem, o mesmo verbo.
Resta saber se eu caibo nessa mudança.
Você sabe onde cabe?



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