Entusiasmo

"Entusiasmo", segundo a etimologia, é ter Deus dentro. Vem do grego éntheos — en, dentro, mais theós, deus. E enthousiázein era o verbo que os gregos usavam para o estado de quem estava tomado pelo deus: nos oráculos e, sobretudo, nos cultos de Dioniso, onde o deus se manifestava na dança.
Dia 02 de outubro de 2026 degustei uma sobremesa diferente. Eu tinha acabado de almoçar, e quando deitei na rede da minha casa para descansar uns 20 minutos antes de voltar ao computador, chegou uma mensagem: "Olha o vídeo que a Junia me mandou: seu amigo peregrino! Eu amei."
O amigo peregrino era Domingos. Um menino de 80 anos de idade, que chegou hoje, dia 02, em Santiago de Compostela, depois de percorrer sua quarta (ou quinta) peregrinação. No vídeo, Domingos caminhava com seu bastão de peregrino, enquanto colocava em alto e bom som a música do Gonzaguinha (1945-1991) "O Que É, O Que É?" (1982), que abre o disco Caminhos do Coração. Enquanto caminhava e a música tocava no celular, Domingos ensaiava passos de samba e regia com seu cajado, feito uma batuta, a própria vida.
O que não aparece no vídeo, mas que Junia, Carol (minha amiga que me mandou o vídeo) e eu sabíamos, era todo o desafio que Domingos teve que enfrentar para chegar até ali. Mas, estoicamente, ele decidiu que a vida não era o que lhe acontecia, mas o que ele fazia com aquilo que lhe acontecia.
Ano passado ele me pediu ajuda, quando quis fazer os 30 dias e 800 km com o neto dele, o Lucas, no Caminho Francês. Esse ano, me pediu para ajudá-lo quando foi fazer o Português. Sugeri que fizesse a Variante Espiritual. Que ele precisava subir de barco e deixar lavar as chagas do destino, enquanto refazia a rota que os restos mortais do apóstolo fizeram, quando voltaram para a península ibérica. Assim fez. E ficou muito grato por minha ajuda.
Até hoje já foram muitos brindes. Mas viver a emoção de vê-lo dançando, com 80 anos, enquanto perfazia os últimos 7 quilômetros rumo a Santiago de Compostela, teve um sabor a mais.
O tempo e o espaço se fazem presentes nesta newsletter. O tempo dele, o espaço de sua vida. Os acontecimentos que ficaram pelo Caminho. Não precisamos esquecê-los, mas tomá-los lição, aprendizado, catapulta, astrolábio. O Campo das Estrelas só pode ser navegado por este senhor-menino-navegante (que subiu de barco de Vilanova de Arousa a Pontecesures depois de ter caminhado centenas de quilômetros) porque seu astrolábio mostrou a rota ao seu coração.
A criança que dança o velho prova que persiste, que insiste, e que caminha com e dentro dele. Talvez essa criança seja o próprio Deus, ou sua manifestação inconteste, que aflora sem cerimônia, e inspira quem pode gozar de sua beleza evidente. É preciso olhos de ver, coração de sentir, amor de ser. É preciso ser peregrino no Caminho ou na vida, para receber, de corpo e alma, a lição que este maestro nos dá. Com seu cajado-batuta nos rege, nos ensina. Nos mostra o compasso e a música de viver.
Sou grato a Deus por ter me dado a oportunidade de, entusiasmado, ser tocado na cadência dos compassos e passos deste menino vintage.
O entusiasmo não é o que o Domingos sentiu ao chegar. É o que o mantém caminhando e dançando no Campo das Estrelas, na própria vida.



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