O Direito de Caminhar Errado
- Bê Sant'Anna
- 16 de mai.
- 3 min de leitura

Em 1998 entrei pela primeira vez no Cemitério do Père-Lachaise. Meu amigo Ricardo queria visitar o túmulo do Jim Morrison. Eu, que nunca tive nenhuma especial ligação com a banda dele, decidi homenagear quem me parecia merecedor de minhas homenagens, com todo respeito ao Jim.
Visitei o túmulo de Fréderic Chopin.
Talvez você já tenha tido a oportunidade de ouvir, quem sabe ver Danill Trifonov, um dos grandes pianistas russos da atualidade interpretando Fantaisie-impromptu de Frédéric Chopin. Se não teve essa oportunidade, vou sugerir que pesquise pelo nome dele no YouTube, e essa peça específica. Melhor ver a apresentação ao vivo do que o clipe que tem dessa música, fica a dica.
Aprendi apenas uma peça de Chopin na minha vida, uma peça pequena e simples — como se isso pudesse não ser uma heresia escrita e confessa. Nada de Chopin é pequeno e simples, mas disse isso no que se refere ao tamanho da peça e na paradoxa simplicidade que ela apresenta, no que diz respeito ao número de notas e acordes, não à sua interpretação, é claro.
No piano, isso acontece com frequência, inclusive. Há muitas peças que são dadas a pianistas que estão iniciando seus passos no instrumento como forma de incentivo. Tocamos as notas da peça, mas nunca tangenciamos a peça, em si. Porque sua complexidade não reside nas notas, mas em sua interpretação, em sua dinâmica, em algo que reside por trás da superfície.
É como caminhar. Parece muito óbvio. Um pé depois do outro. No ritmo que você escolher. Mas nem todo mundo faz o Caminho de Santiago, mesmo tendo-o percorrido. Há, inclusive um perigo aí, ou melhor, aqui: que você interprete erroneamente o que estou confusamente tentando explicar. Porque paradoxalmente, não podemos julgar o Caminho de ninguém, ao mesmo tempo que estou já dizendo que nem todo mundo faz o Caminho de Santiago mesmo o tendo percorrido. É como entrar no cemitério do Père-Lachaise e reconhecer o túmulo do Jim Morrison e do Frédéric Chopin. Os outros mortos que lá estão, estão igualmente mortos. A não ser pelo fato de que Jim Morrison e Chopin continuam vivos. Continuam percorrendo os seus e os nossos caminhos, mesmo depois de já há muito terem partido.
Isso acontece também com Piaf, com Proust, com Oscar Wilde — com todos os que lá estão enterrados e continuam, paradoxalmente, a caminhar entre nós. Há algo de eterno num Caminho que não tem princípio meio e fim. Há passos que soam atemporais porque são dados por todos, mesmo sendo pisados por um, por mim ou por você. Sempre ouço críticas aos peregrinos que enviam suas mochilas, aos que dormem em hotéis, aos que pulam etapas, ou aos que caminham poucos quilômetros.
Mas o Caminho também se faz deles, com eles e para eles. É tocando as notas sem compreender a profundidade de uma peça dita simples de Chopin que podemos, de alguma forma, tentar acessá-lo. Talvez assim, caminhar mais e mais no mundo da música, para voltar nessa peça depois de 20 anos de piano e, finalmente, compreender o que subjaz nas profundezas da partitura. Dar oportunidade ao turista, ao atleta, ao curioso, ao ligado na modinha de fazer o Caminho de Santiago é como semear. É como deixar tocar Fantaisie-impromptu para que, talvez, alguém ouça pela primeira vez e se torne apaixonado, e para sempre, por Chopin.
As notas e os passos podem nos levar aonde sequer podemos ver. E o que transforma uma nota em música, um passo em Caminho, é sempre a mesma coisa — a disposição da entrega naquilo que se faz.



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