O Caminho não Termina em Santiago
- Bê Sant'Anna
- 18 de jul.
- 2 min de leitura

O que acontece quando você chega em Santiago?
A primeira vez que cheguei a Santiago foi em 2009, depois dos 800 km do Caminho Francês. Curiosamente, me lembro até hoje dos sentimentos paradoxais. Decepção e dever cumprido, angústia e gozo, tristeza e alegria, lamento e regozijo. Contrastes. A angústia de lidar com sentimentos antagônicos que vinham em ondas junto com muitas perguntas. Eu achava que deveria sentir apenas alegria e graça — e essas ondas que vinham inesperadamente e maculavam o que eu queria sentir sem dúvidas. Mas lidava com ondas de sentimentos contrários. Por quê?
Meu sogro traduz o estoicismo de uma maneira muito interessante, e eu aprendi isso com a forma como ele enfrenta há mais de 25 anos o Parkinson: "a vida não é o que me acontece. É o que eu faço com aquilo que me acontece." Só fui ter essa lição cinco anos depois do meu primeiro Caminho, quando passei a conviver mais com ele. Se eu soubesse disso antes, poderia ter escolhido lidar com a experiência do Caminho com outro tipo de compreensão.
Há quem viva o Caminho e desperte. Há quem volte a cada ano subsequente na esperança de despertar. Porque não é regra. Não adianta uma coisa maravilhosa acontecer com você se você não sabe o que fazer com aquilo. E eu simplesmente não sabia. Passei a patinar — assim como a maioria absoluta dos peregrinos que vejo e que ajudo há 17 anos.
A regra é: queremos trazer o que experienciamos no Caminho para o dia a dia. Mas, como bem diz meu amigo Clóvis de Barros Filho, "o mundo não dá tréguas." E se não tivermos a habilidade de criar, de modo consistente, pequenas práticas de transformação no cotidiano, a experiência de graça e renascimento vira frustração. Porque a vida retoma o ritmo antes que a gente consiga semear o que aprendeu.
Foi exatamente dessa dor — a minha e a de centenas de peregrinos que acompanhei — que nasceu o que vou apresentar em breve.
Vou ser muito franco, e aqui corro o risco de você duvidar da intenção desta publicação. Mas vou ser direto: há 17 anos, ajudando mais de 900 peregrinos, catalogamos as dúvidas, aflições, questionamentos, raivas e frustrações pós-Caminho. E assim como criei um método holístico de preparação — físico, logístico, mental, emocional e espiritual (o Seu Caminho Começa Antes, com o Método das 4 Estações do Peregrino) — percebi que precisávamos organizar um apoio pós-Caminho com o que aprendi e cataloguei nesse tempo. Para minimizar os desafios. Para semear de forma clara e consistente o Caminho no dia a dia de quem chega. Para que a experiência não se perca no turbilhão da rotina.
O método se chama ECO. Porque nossa vivência precisa reverberar, ampliar e voltar para nós no cotidiano. Assim como o eco numa montanha — você grita, e o que você lançou volta transformado, ampliado, vivo.
No Caminho, encontramos setas amarelas para não nos perdermos. Encontramos quem se disponha a repartir o lanche, cuidar dos nossos pés, dos nossos medos, do nosso coração. O ECO quer ser isso depois que você volta: a seta amarela do dia a dia.
Quando você recebe uma graça, você compartilha ou guarda só pra você?



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