A Divina Providência
- Bê Sant'Anna
- Aug 15
- 3 min read

Você já deve ter passado por isso; todo mundo passa. Viver alguma coisa sem entender o sentido dela, e só dias, meses ou anos depois descobrir para que aquilo serviu.
Fui procurar o que significa "providência". Vem de pro-videre: ver antes. E é interessante, porque a palavra me remete a prover. Como se alguma coisa provesse antes, e a gente só percebesse depois. Pois bem.
Há duas semanas, em minha visita ao Brasil, recebi um convite do Tio Flávio - o nome mais importante quando o assunto é voluntariado. Ele me chamou para ir a Ribeirão das Neves: Penitenciária Dutra Ladeira, segurança máxima, Pavilhão 1.
Depois de passar por cinco pontos de revista, entrei no pátio central, onde os detentos tomam sol. Notei o espaço retangular, as celas no primeiro e no segundo pavimento, a tela que cobria todo o recorte da construção por onde o sol entrava, reforçada por concertina em todo o perímetro. E o chão de cimento. Ali, noventa e seis homens em início de reintegração se sentaram ao meu redor. Durante uma hora falei sobre o Caminho, a liberdade de escolha, o que nos move, o que pra mim significa esperança.
Tempo.
Duas semanas depois, a mesma cidade. Dessa vez, o convite da Dra. Laura Henriques, diretora do departamento jurídico da Direcional Engenharia, para falar no Projeto Mundo dos Livros, no Centro Infantil Divina Providência.
Fui recebido por um batalhão de crianças sorridentes, alegres, cabelos arrumados, uniformes lindos. Cantaram três músicas. As três que eu escuto todos os dias para me lembrar da minha filha, que vive em Recife.
Atravessei o Atlântico para ouvir, num centro infantil do interior de Minas, exatamente as canções com que chamo minha filha todas as manhãs.
Depois fui para o auditório, onde me encontrei com quatro turmas, levando o livro A Ilha e O Urso. E a repetição exata: as crianças também se sentaram no chão, ao meu redor. Falei novamente sobre o Caminho, a liberdade de escolha, o que nos move, o que pra mim significa esperança.
Me senti o fiel da balança.
De um lado, noventa e seis homens. Do outro, quatro turmas de crianças. Dois grupos que nada aproxima: nem a idade, nem a história, nem o percurso da vida. E ainda assim os dois pratos da balança me pareciam pesar igualmente. Porque a pergunta diante deles era a mesma: que caminho devo escolher?
As crianças feridas que moram nos adultos do pátio sentaram no mesmo chão.
Metamorfose: meta (para além) + morphé (forma). Ir além da forma que se tem. Curiosamente, em português, é AMOR que mora no meio dessa palavra. E talvez seja essa a resposta que não encontramos na etimologia: ninguém molda a própria forma somente por vontade. Molda por amor.
Fui falar de esperança num lugar chamado Divina Providência, na mesma cidade onde, duas semanas antes, eu falei de esperança a quem a perdeu.
A Divina Providência não armou uma coincidência bonita para que eu escrevesse este texto. Ela me pôs duas vezes no mesmo chão, diante de crianças de idades bem diferentes, para que eu me lembrasse do que escrevi no meu livro de 2019: que coincidência é só um outro nome de Deus.
E se você chegou até aqui pensando no que ainda não entendeu, talvez o sentido que procura ainda esteja sendo escrito.
Caminhamos juntos.



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