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Limiar

  • Writer: Bê Sant'Anna
    Bê Sant'Anna
  • 3 days ago
  • 4 min read

limiar-eu-caminho

Se meu amigo Shishido-san não tivesse me chamado a atenção, provavelmente eu ia passar por ela sem ver. Vendo a foto, você pode imaginar o porquê. Eu encontrei-a quase por acidente. Uma pedra de granito emergindo do capim, com inscrições em kanji, maculada pelo tempo. Sua leitura já era quase impossível. Mil e duzentos anos ali, na beira do Caminho de Shikoku. Não era um monumento. Não tinha placa explicativa. Era apenas um marco - uma pedra que dizia: aqui, alguém um dia decidiu dar o passo que transformaria sua história. Aqui alguém decidiu transpor.


Fiquei parado diante dela mais tempo do que seria razoável. Como se os 1.200 anos de história daquele Caminho Sagrado conversassem comigo.


Curiosamente, eu não sabia exatamente o que lia. Mas sabia o que sentia: que estava num tipo de limiar.


Você já ficou parado diante de algo assim - sem saber bem o motivo, mas sem conseguir dar o próximo passo?


Limiar vem do latim Līmen - soleira, fronteira entre dois espaços. A mesma raiz de liminal: o estado de suspensão entre o que era e o que ainda não é. Na tradição tibetana, esse estado tem nome: Bardo. O intervalo entre uma morte e um renascimento. Já falei do Bardo aqui - mas o limiar é o Bardo que vivemos acordados. Não precisamos morrer para conhecê-lo. Basta chegar à porta. Os romanos tinham Jano - o deus de duas faces, guardião dos limiares. Não à toa ele dá nome a janeiro, o mês da virada. De um lado, olhamos para o que ficou. De outro, olhamos para o que vem pela frente. E serve como esse portal sígnico.


Em Shikoku, os templos budistas têm um nome para esse espaço: Sandō (参道) - o caminho de aproximação entre o portão da rua e o espaço onde se ora. Não é ainda o sagrado. Não é mais o profano. É o corredor entre os dois mundos. E o ideograma dō (道) significa tanto caminho físico quanto o caminho dos esforços de uma vida. O peregrino de Shikoku atravessa este corredor 88 vezes - uma para cada templo, uma para cada paixão terrena que a rota convida a soltar. 88 limiares físicos. 88 oportunidades de decidir atravessar.O limiar físico e o limiar espiritual são o mesmo dō, o mesmo caminho neste caso. 


O antropólogo Victor Turner chamou de “liminaridade” o estado de quem está entre dois mundos. Nem o de antes, nem o de depois. É desconfortável. E fértil ao mesmo tempo. É onde efetivamente acontece a transformação - não na chegada, mas na suspensão - no lugar da decisão.


Yongey Mingyur Rinpoche, um dos grandes mestres budistas contemporâneos, viveu isso de forma radical. No auge do reconhecimento - mestre respeitado, mosteiro cheio, vida estruturada - ele simplesmente foi embora. Deixou tudo e foi viver como monge errante anônimo pelas ruas da Índia, para reeditar as peregrinações errantes dos mestres de sua linhagem. Sem identidade. Sem título. Sem estrutura.


No livro Apaixonado pelo Mundo, que usei como meu objeto de estudo no doutorado, ele descreve o momento na estação de trem de Varanasi: sentado no chão, invisível, sem que ninguém soubesse quem ele era. Aquela estação foi o seu limiar. E quase morreu no processo - mas foi ali, naquele intervalo entre o que era e o que ainda não sabia ser, que algo essencial se revelou. O lugar da decisão era o lugar de sua maior verdade.


Costumamos dizer que as pessoas têm medo do desconhecido. Mas talvez não seja bem isso.


O que paralisa não é o que está lá na frente - é o custo do que vai ficar para trás. A dor não mora no futuro. Mora aqui, no desconforto conhecido, aquilo que por mais difícil que seja, já sabemos lidar, e é justamente isso que teremos de deixar para trás: o emprego seguro, o relacionamento familiar, a identidade construída, a cidade onde todos nos conhecem pelo nome.


A paralisia no limiar é, na verdade, uma espécie de saudade antecipada. Não “medo do novo”. É como um luto do velho. E é por isso que tantas pessoas ficam anos neste portal, nessa soleira, neste alpendre que comunica com o interno e o externo. Não por covardia. Por amor (ou apego) ao que foi. O limiar respeita isso. Ele não empurra. Apenas permanece aberto, desconfortavelmente aberto.


Sabe? Aquela pedra de granito no capim da Ilha de Shikoku não marcava só uma partida. Marcava também uma chegada - dependia apenas do lado em que você estava.


A mesma soleira que é portal de saída é portal de entrada. Para quem parte, é o fim do conhecido. Para quem chega, é o início do novo. A porta não muda. Somos nós que mudamos de lado. Essa newsletter pode estar aqui, neste momento, para fazer como meu amigo Shishido-san. Mostrar para você a soleira de um portal que você sequer está vendo. O que exatamente te mantém no limiar, nesta soleira em que você está?



 
 
 

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Bernardo Moura de Sant'Anna / 50.106.917/0001-43 / Rua Camil Caram, 70 / 201 - Belo Horizonte - MG - 30350-335

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