Herança
- Bê Sant'Anna
- Aug 22
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Fui procurar a raiz da palavra herança, e recebi uma lição importante. Heres, heredis - herdeiro - vem, na etimologia mais aceita, de uma raiz que significa ficar desprovido, ser deixado para trás. Isso dá um nó neste texto. Porque não tem ninguém sendo deixado para trás neste momento.
Curioso, porque eu ia escrever sobre o Fernando, pai da Ana, minha companheira de vida e estrada, porque ele tem me ensinado muito esses dias. Há 13 anos convivo com a família, e ouvi dele duas coisas que me marcaram muito.
A primeira delas: eu não tenho Parkinson. Eu estou com Parkinson, é diferente. Custei, mas entendi o que me disse. Não é isso que o define. A outra coisa que ele me ensinou explica, sensivelmente, o que a primeira entrega: a vida, diz ele, não é o que me acontece. É o que eu faço com aquilo que me acontece. Se você prestar atenção, isso explica sua forma de ver essa condição inexorável que há um ano e meio o deixa de cama.
Epicteto, dono quase literal dessa frase parafraseada por ele, era coxo. Um dos grandes mestres do estoicismo tinha uma condição semelhante: seu corpo também não o obedecia. No tecido da vida, ter sido não é condição. Saber escolher é o que importa.
Digo isso porque o texto parece ser sobre o Fernando - a quem, ainda bem, podemos agradecer, e temos feito isso todos os dias, principalmente depois que adiamos nossa volta para Portugal para ficar mais tempo com ele. Mas ele é, na verdade, sobre a Lenora. Sua companheira de vida e estrada, a esposa fiel e aplicada que apenas o corpo deixa para trás.
O corpo, porém, é apenas uma dimensão da existência. Digo aplicada, quando falo da Lenora, porque significa pôr sobre, dedicar, fazer incidir. Há muito mais de 50 anos ela aplica. Foram os primeiros namorados um do outro e se confundem tanto que às vezes penso que a Lenora é a herança que Fernando quer deixar para as meninas.
Arabesque - como na música de Debussy.
O que ele me ensinou também fica como herança. Prova que a herança definitiva não é biológica - cheguei a esta família de fora e recebi assim mesmo. Prova que posso pensar na Lenora como herança desse estoico que sabe se fazer casal, pai, exemplo, avô. Lenora vem nos dando de herança a prática: é a mestre zen mais barulhenta que conheço.
Durante mais de 25 anos Fernando disse eu não tenho isso, eu estou com isso. Durante mais de 50, Lenora disse eu sou esse casal. E Fernando também. Um tem o outro - o ter que os dois aceitaram. Foi assim que a família se fez, não com o que acontecia, mas com as escolhas frente aos acontecimentos. As três filhas e uma certeza: a herança são elas mesmas, não há nada a ser entregue. Porque tudo foi por inteiro. De corpo e alma - alma, aquilo que move.
Enquanto Fernando faz viagens astrais para o Cosmos, cada vez mais longas, e pousa aqui em breves momentos de contato, Lenora vai nos ensinando a prática. Como escolher. Como acolher. Como tecer em arabescos.
A etimologia de Fernando, "ousado na paz", nunca fez tanto sentido. E é ele quem tem a última palavra, toda vez que pousa:
Estou aqui, amo vocês, estou lidando com o que me acontece.



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