Violência
- Bê Sant'Anna
- há 3 dias
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Violência é uma palavra difícil de dimensionar. Vou dar um exemplo.
Foi somente depois de passar três longos meses sem sequer pegar uma condução — um ônibus, uma bicicleta, um carro, um avião — que percebi o que isso verdadeiramente representa em termos de dimensão.
Acredite: é uma “violência” andar de carro para um organismo que foi feito para caminhar. O homem mais rápido do mundo corre — por relativamente pouco tempo — a uma velocidade de 45 quilômetros por hora. Um falcão-peregrino consegue imprimir 320 km por hora em um mergulho (pode olhar no Google). Um guepardo chega a 130 km por hora em perseguição. Mas todos eles se desenvolveram para isso, seguindo Darwin.
O homem caminha.
E caminha, em média, a uma velocidade de 1 a 1,6 metro por segundo, o que quer dizer algo entre 4 e 6 quilômetros por hora — bem diferente de um carro que, mesmo devagar, se move a 60 ou 80 quilômetros por hora.
Essa reflexão pode parecer boba ou irreal. E enfrenta a obviedade: todo mundo pega um carro, um ônibus, hoje em dia, todos os dias, e não se sente “violentado”. Mas não se engane.
Passe três meses caminhando — e somente caminhando — e depois volte a refletir. Porque a constatação se torna óbvia. A natureza do sujeito tem a ver com o biorritmo da caminhada, com a naturalidade de ser, respirar e cadenciar os passos em um movimento que combina com a nossa programação interna. Você não percebe a cadência dos seus passos com a sua respiração até que se ponha a caminhar prestando atenção exclusiva a isso. Não compreendemos a sincronicidade dos passos com as batidas do coração até que passemos a vivenciar, de forma constante e prolongada, a coordenação desse biorritmo.
A natureza cobra. A gente paga a conta. De uma maneira ou de outra.
Você pode ler essas palavras enquanto ouve música, enquanto resolve outro assunto, enquanto volta do trabalho de ônibus, carro ou trem. Você pode caminhar enquanto ouve música, enquanto conversa com alguém no celular (ou telemóvel), discutindo sobre algum assunto que parece importante e não pode ser deixado para depois.
O fato é que existem condições especiais que nos fazem experimentar uma realidade até então não vivida por nós, e que mudam nosso paradigma, nossa forma de pensar, nosso jeito de ser. Experimentar viver naturalmente por um tempo suficientemente longo — a ponto de incorporar o que isso significa — conduz a um olhar novo.
Viva na praia tempo suficiente para incorporar o que significa viver vendo e convivendo com o mar. Depois você me fala. Viva na floresta tempo suficiente para incorporar o que significa viver vendo e convivendo com a natureza. Depois você me fala. Viva em um lugar efetivamente silencioso por tempo suficiente para incorporar o que significa viver e conviver com o silêncio e a quietude. E depois você me fala.
Talvez você, posteriormente a uma dessas experiências, compreenda outras dimensões da palavra “violência”.
“Poxa, mas você deu exemplos impossíveis. Não consigo morar na praia ou na natureza por um ano, caminhar durante três meses sem pegar um carro ou viver no silêncio por tempo suficiente.”
Não. Mas você consegue desconectar o fio da sua televisão e guardá-lo por três meses. Consegue ficar três meses sem beber álcool. Consegue se sentar por dez minutos todos os dias antes do café e dez minutos depois do jantar, em silêncio, em um quarto à meia-luz, prestando atenção na sua respiração, por três meses — até que compreenda as diferenças dessa prática diária. Consegue ler três a quatro páginas por dia de um livro com pensamentos leves e edificantes.
E cada uma dessas experiências vai fazer com que você questione o quanto pode ser violento manter atitudes simples do nosso dia a dia que poderíamos abandonar ou evitar de modo consistente — e quais são as diferenças quando resolvemos agir, mesmo que de modo simples e gradual, para mudar.
Você sabe o que acontece quando a sutil água corre sobre uma pedra dura por tempo suficiente?



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