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Certeza

  • Foto do escritor: Bê Sant'Anna
    Bê Sant'Anna
  • 11 de jan.
  • 3 min de leitura

– Meus amigos acham que eu fiquei doido. Minha mulher tem certeza.



Foi assim que Jack, de setenta e alguns anos, explicou que ele, um avô inglês, tinha deixado todo mundo boquiaberto quando resolveu sair de sua cidadezinha do Reino Unido e caminhar até Santiago depois de receber a notícia de um milagre.

Seu neto estava em cirurgia, e quando os médicos disseram que era praticamente impossível que ele sobrevivesse, ele decidiu descobrir onde era a capela do hospital, para se acalmar e rezar um pouco. Chegando lá, uma imagem de Santiago. Ajoelhado em frente a imagem, pediu que Santiago operasse um milagre na vida de seu neto.

Não demorou para que viessem da sala de cirurgia com a notícia – o neto estava salvo, e os médicos impressionados.

Canelas grossas, de bermuda, me senti imediatamente tocado com a história daquele avô inglês. Curiosamente, encontramos somente aquele dia. E nunca mais tive notícias dele. Perguntei para vários peregrinos e nada. Quem já fez o Caminho sabe: isso é quase impossível. Sempre temos notícias dos peregrinos que encontramos no Caminho, quando partimos, vamos reconhecendo quem está mais ou menos no mesmo ritmo, quem anda mais rápido, quem vem lentamente, e os outros peregrinos vão dando notícias se fulano está 2 horas na frente, um dia atrás, onde dormiu e se decidiu abandonar.

A palavra caminha conosco em todo o Caminho. E demonstra como se propaga.

No dia de chegar a Estella, em 2013, caminhei por várias horas com este senhor de meias verdes e pretas xadrez. Também tive a oportunidade de compartilhar minha história com ele e como a luta contra a alienação parental tinha se transformado em uma chaga menor, quando (até aquele momento) já havia recebido quase uma centena de pedidos para que eu caminhasse pelas dores daqueles que me encontraram.

Quase em Estella, me chamou a atenção: – Olhe bem. Está vendo aquele cruzeiro no alto do morro?

Respondi que sim.

– Nesta hora, Deus está sentado em seus pés, olhando aqui para baixo e vendo nós dois. Ele está dizendo: “veja só… lá se vão dois dos meus grandes homens!”

Tendo ele dito isso, fui tomado de assalto completamente: uma emoção a ponto de encher meus olhos d’água. De súbito, respondi, com a voz embargada e lembrando dos cerca de 2000 km caminhados desde o Vaticano: – Você não faz ideia de como eu tenho tentado…

Foi quando Jack me deu uma lição para a vida que nunca mais me esqueci:

– Para ser o seu melhor, você só precisa ser melhor hoje.

E isso me acendeu uma luz interna. Ser o melhor hoje. Fazer o melhor que posso agora. Era o que eu tinha feito nos últimos dois meses e pouco, levantando suado e chorando, do meio de uma estrada entre um lugar que eu não conhecia e outro, sem torcida e sem aplauso, para “prosseguir apesar de”.

São muitas as vezes em que buscamos o aplauso, a torcida, o corrimão, a corda ou o ombro. São infinitos os “apesares” ao longo do Caminho.

Os anos passam, e mesmo quem está próximo pode não reconhecer suas ações. Mas quando calcamos a fundação da crença na verdade, no foco, na fé, nem mesmo a crença de que ficamos loucos pode nos parar.

São muitas histórias de amor e milagres vividas nos Caminhos. Se somente hoje formos melhores do que nós mesmos, o para sempre da vida vai deixar todos à nossa volta boquiabertos.

 
 
 

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