top of page
Search

Um pau pra chamar de seu

Writer: Bê Sant'Anna
Bê Sant'Anna
Apr 7, 2015
2 min read
Custom alt text

É preciso que algum estudioso faça um artigo de fundo sobre o pau de selfie. 

Eu não sou estudioso e nem tenho conhecimento para isso.

Aliás, nem pau de selfie eu tenho. Meu pau é outro. Oco.

O pau de selfie é o falo contemporâneo. A ereção compartilhada. 

Se dá assim: o pau de selfie fecunda o anonimato. Nasce o reconhecimento. 

Filho legítimo do indivíduo com a sociedade, morre à míngua porque sua mãe é desnaturada. Ela não quer dar de mamar. Por isso, morre dias, horas, minutos depois, sem atenção, sem carinho, sem cuidados. Coitado.

Custom alt text

É preciso que alguém discorra sobre o pau de selfie. Coisinha fina que não faz canoa. Não bóia, não cutuca, não é pra toda obra, não escorrega, não protege, não faz calar. Não consola. Nem goza. Mas tá aí, pra cima e pra baixo pra todo mundo ver. Pau enorme, nosso pai?

Custom alt text

Eu tenho pena do pau de selfie. Porque de self ele me parece ter muito pouco. Não sei (mais) qual o limite do particular e do coletivo. Talvez essa questão remeta à análise social e política, à pesquisa sobre a construção do indivíduo no mundo contemporâneo balizado pelo consumismo, às questões éticas entre o público e o privado, entre a importância que damos à coletividade e ao ser social. Mas o compartilhamento é esse mesmo?

Custom alt text

Nada mais egoísta do que compartilhar? 

Eis a charada contemporânea. Quase um koan zen budista a ser revelado em busca da iluminação. Eu não sei. Mas imagino que seja triste pensar na coletividade corrompida. Numa espécie de quebra do fundamento primitivo socialista que não reparte o bem. Reparte o individual inacessível. Nada que ver com a verdade da partilha. 

Quem, afinal, pode comer aquele prato? Olha que bom a festa que não estou. Olha como é importante quem não sou eu. Veja como é bonito, aceito, rico, in, divertido, descolado, audaz, esportista, interessante, destemido, só. A foto do outro mostra um momento que não é, já foi. A foto do outro marca o lugar da individualidade mostrada, não repartida. 

Se Jesus fizesse uma foto do pão e do vinho e tivesse 2,7 milhão de partilhas no Twitter, como a famosa foto do Oscar da apresentadora Ellen DeGeneres, ninguém ia comer seu corpo e beber seu sangue, como seus 12 discípulos. Não é exatamente isso, o repartir. Ou agora é?

Quem parte e reparte, fica com a melhor parte? Não nesse caso. Fica com tudo. E não compartilha, mostra. Eu tenho dó do verbo compartilhar. Foi usurpado. E a banalização do verbo curtir esvaziou seu valor. Curtir não significa mesmo muito hoje. 

Sinto muito, mas não consigo ver o pau de selfie como um artifício do Mané, mas sim, como um dispositivo de Foucault. No entanto, ele não dá poder a quem usa. Só empodera a contemporaneidade consumista que estende seu domínio subjugando o indivíduo.

O pau de selfie é a espada do grande Outro Lacaniano. E coitados de nós, continuamos sem abraço.

 
 
 

Recent Posts

See All

Comments


Bernardo Moura de Sant'Anna / 50.106.917/0001-43 / Rua Camil Caram, 70 / 201 - Belo Horizonte - MG - 30350-335

bottom of page