Gameleira

Antigamente se usava a gamela para guardar alimentos, para amassar pão, para dar comida aos animais. Gamela deriva do latim camella, que significa “vasilha”, “tigela” ou “tipo de vaso em madeira usado para sacrifícios”, segundo a etimologia. Na minha cabeça, um objeto que transcende o “utilitarismo” — a poesia côncava, acunhada na madeira macia de cor calma, me fala de um lugar onde deito não só coisas, sentidos. Há sombras.
A Barra do Guaicuí, distrito de Várzea da Palma, perto de Pirapora, é lugar de encontros.
A primeira vez que vi uma peregrinação foi a de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, Minas Gerais. Aqui em Portugal, o Bom Jesus de Matosinhos de Matosinhos e o Bom Jesus do Monte de Braga me falam de onde estou. E foi na igreja Senhor Bom Jesus de Matosinhos, na Barra do Guaicuí, que depois de visitar Congonhas encontrei o que eu ainda não sabia nomear. Ela me contou da árvore que eu iria criar com o Projeto Eu Caminho. Do natural ao sagrado.
A Natureza encontra o Sagrado: a centenária gameleira nasce dentro da igreja e inexplicavelmente se transforma em um campanário nativo e inato. Lá o Jaó faz papel de sino. Seu canto orna o resto todo. Mais não há.
Lá, o Rio das Velhas encontra o Rio São Francisco. E eu, Nestor — meu pai — e Daniel Mansur, uma espécie de irmão mais velho, nos encontramos com Tavinho Moura, que foi nos buscar de barco. Talvez ele me xingue, porque eu deveria falar barca. Barca tem uma sonoridade mais antiga, poética, histórica. O jeito ribeirinho está no calado do rio. O jeito do Tavinho está no calado da barca. Nas trovas, troças, sucedidos, causos verídicos e fantásticos de um violeiro poeta marceneiro. Toda gameleira me fala de um Tavinho potencial. É com esse pau que se faz canoa, gamela, oratório, música e poesia.
Todo Rio me fala do meu pai e toda paisagem me fala do Daniel.
Deus me chamou para estar ali, e experimentar uma Havana acompanhando uma costela de catitu, que os peões da fazenda pantaneira do Almir Sater caçaram — não sei se ele disse isso para valorizar a costela. Sim, ele veio na barca com o Tavinho. Um, Surubim Beijador. Outro, Caboclo d’água. Duas entidades irmãs, amigas, marulham música e água e recebem a nós três, na Barra. E de lá saímos para a terceira margem. Aliás, essa experiência da terceira margem é só para rosianos, ribeirinhos legítimos e sonhadores. Eu fui, eu vi.
Dentro da gamela, coloco histórias verdadeiras que transcendem a fantasia e aportam no mundo real. Orno com flores. Quando fui fazer um Santíssimo, disse a Ana, minha mulher, que queria um cesto de junco. Comprei flores e peixes cor de madeira do mesmo espírito, para pintar de cores-coloridas. Ficou lindo. Flores e peixes não me falam somente de Jesus. Falam do que vim fazer aqui. Falam da travessia. Olha que ainda nem consegui falar da música e das imagens. Daniel não captava imagens. Fazia imaginagens — ou algo do gênero — é difícil definir. Tavinho e Almir não fazem música. Jaózem. Sabiázem. Não sei ao certo. Mas se soubesse, diria.
Antigamente é hoje. E hoje, e sempre, a música que mais me define é do Renato Teixeira, amigo do Almir, Olhos Profundos. Com sacrifício, deixo minha gamela vazia à espera de outros encontros. Não sem cavar na sua madeira palavras minhas, veios poiéticos.



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