Templum
- Bê Sant'Anna
- Jul 25
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Sentei-me na varanda para contemplar o amanhecer da cidade de Belo Horizonte. Antes que meu olhar pudesse ultrapassar a tela de segurança, anteparo infantil que separa o apartamento do abismo, a palavra já estava em meu olhar.
“Contemplação” vem do latim contemplatio, derivado do verbo contemplari. E contemplari é composto por con- (junto, com) + templum.
Templum, no entanto, não significa originalmente "templo" - no sentido de edifício sagrado. Significava o espaço demarcado no céu que os augures romanos - os sacerdotes que liam os sinais divinos - recortavam com o seu bastão para observar o voo dos pássaros. Ou seja, era uma zona delimitada, separada do resto, consagrada à observação. Um espaço sagrado criado pelo ato deliberado de olhar.
Con-templari era então entrar nesse espaço junto - ou criar esse espaço interior para que algo pudesse ser visto com atenção plena. Da mesma forma que decidi me sentar no sofá da varanda para olhar a cidade enquanto a família amanhece.
Três templa a serem observados neste momento por mim, daqui de cima de BH:
O primeiro - o dos augures romanos, o espaço recortado no céu com o bastão. A origem da palavra que me oferece a cadência do olhar e da reflexão.
O segundo - a Janela do Retiro das Pedras. O templum que a terra criou sozinha, sem que ninguém pedisse e se tornou para mim espaço sagrado, onde eu ia sempre quando aqui morava. Localizado na Serra da Calçada, onde fica o condomínio Retiro das Pedras, é um Monumento Natural, trecho local da Serra do Espinhaço, com espécies típicas da transição entre Mata Atlântica e Cerrado - canela-de-ema, lobeira, sempre-viva. Onde um regato desce pedindo licença para a vegetação rasteira de montanha no alto do morro, antes de escorrer como lágrima para o despenhadeiro, entre duas grandes pedras, depois de ter formado várias pocinhas convidativas ao refresco. Da Janela eu via o pôr-do-sol.
O terceiro, no nascer do sol - a varanda do Santo Antônio. O templum que a cidade ainda permite, se soubermos encontrá-lo. Hoje, ouvi o cajado marcando o espaço: o sino da igreja de Santa Rita bateu sete vezes enquanto eu refletia no panorama, em busca do sagrado a ser vivenciado. É bonito, não é? Quando uma igreja marca as horas, tirando a gente do espaço e colocando a gente no tempo. É como um lembrete de nossa existência e de nossa finita participação no sagrado que persiste. Interessante como podemos buscar os recortes sagrados em nossa volta para contemplar. É preciso ter olhos de ouvir.
No Caminho, o próprio ato de caminhar cria esse templum interior. A solidão, o ritmo dos passos, o silêncio - são o bastão do augure que demarca o espaço-tempo onde algo pode ser verdadeiramente visto. O onde-quando em que eu, finalmente, posso ser demarcado.



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