Demora

Para quem espera, a demora é atraso. Para quem permanece, tempo vivido.
Se pensarmos na demora como a arte de deixar algo tomar o tempo que precisa, talvez compreendamos a necessidade desse aprendizado. Vivo falando isso com a minha filha de 6 anos. E vivo exercitando isso com a minha filha de 15.
Com a de 6, busco o aprendizado dela, com a de 15, o meu. Ouso dizer que eu sei esperar. Afinal, não tem quem caminhe a pé mais de 6.000 km e não tenha aprendido o que significa a espera. Mesmo que você possa definir isso como uma "espera ativa".
Acho que somos impacientes com o amadurecimento. Mesmo com a manga que já está na fruteira. Imagina com a semente que acabamos de enfiar na terra?
Lembro-me bem e com saudades de um diálogo que presenciei entre meu tio, o mais velho da casa do meu pai, e a irmã deles, uma das mais velhas. Estávamos no sítio dos meus pais, a Matinha, nas cercanias de São Sebastião das Águas Claras, "Macacos", quando minha tia ajudava a plantar um pé de acerola ao lado da porta da cozinha, atrás da casa. Meu tio Zezito virou para a tia Yara e disse
"— Você está plantando essa árvore, mas não vai comer da fruta dela, Yara. Quando ela der as primeiras acerolas, você já vai ter partido…"
Demorou, mas chegou. Tio Zezito já tinha morrido há um bom tempo quando a acerola deu as primeiras frutinhas. Lembro quando tia Yara levou a primeira delas à boca. Ela se lembrou do que disse o irmão. Eu também me lembrava, no mesmo instante. Mas não disse nada — por cuidado com quem já tinha partido e com quem ainda estava ali.
Fato é que tia Yara não comeu só das primeiras acerolas que vieram, comeu muitas vezes desse pé, e sempre se lembrava sorrindo do irmão e da sua provocação.
"Demora" é uma palavra muito bonita etimologicamente. Ela carrega essa tensão interessante e desafiadora entre tempo e permanência. Se perscrutarmos bem, vamos descobrir que ela chegou ao português pelo latim vulgar demorare — o prefixo de-, que pode indicar afastamento, prolongamento ou intensificação, e morari: "demorar-se", "ficar", "permanecer", "deter-se". Ou seja, mora, demora, atraso, intervalo, tempo de espera — tá tudo no mesmo pacote. Aliás, há uma família inteira de palavras em torno dessa ideia: morar, demora, morada, morador.
Parece que meu tio entendeu que a demora só existe porque ele estabeleceu previamente uma medida para o tempo. No caso, a vida da minha tia. Como ela não tinha expectativa da chegada, viveu, apenas. Permaneceu. E chegou.
Sabe, tudo isso me fala de ritmo, de cadência, de estar no aqui e agora — e me dá uma lição muito grande. Uma que posso resumir em um haikai. Vou chamá-lo de Haikai da acerola.
No amadurecimento
quem descobre o amor
aprende a morar
Que você possa descobrir o mesmo — e permanecer.



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