Queda livre
- Bê Sant'Anna
- May 30, 2010
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Ainda machucado, levanta-se ao cair da janela.
Limpa o pó, bate a terra, tosse.
Inspira.
Está vivo.
Foi por pouco dessa vez. Muito pouco.
Pensou em pular da ponte, mas já estava em queda livre, caindo da janela.
Esfola as mãos, o peito, a boca, a bochecha e abaixo do pescoço, onde costumava haver carinho.
Inspira.
Inspira de novo.
Abre os olhos.
E não acredita no que vê: está no Caminho de Santiago, sua roupa agora é outra, seu peso agora é outro, sua força, sua bênção. Sabe que suas chagas serão curadas pelos primeiros peregrinos que passarem. Com cuidado, com zelo, com cuidado.
Reflete amor. E acredita. E sabe.
O perdão passa por ali, oferecendo ajuda.
Aceita.
E a dor vai embora no lombo vasto e tranquilo do perdão.
Começa a ouvir: e descobre atônito que é vida, pura e simples e sente saudades das coisas boas. Tudo levou até ali. Levou tudo até ali.
Lavou tudo até ali e sorri.
E decide Caminhar, para ver conjugado o verbo amar.



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