Armadura
- Bê Sant'Anna
- 2 days ago
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Minha mulher permanece mais mulher do que minha.
Gueixa, continua indecifrável. Pele alva, expressão distante.
O peixinho do aquário simula a carpa japonesa.
Aquário verde, água turva, lago simulacro. Simulago.
Minha filha Maria lembra-me da paterna idade.
Um bom exercício de construção do sujeito.
O quadro de Daniel Mansur, na parede central da sala, me transporta imediatamente para dentro do olhar dele — do artista, do fotógrafo, do irmão que se foi, do amigo sensível de quem sinto falta.
Esse quadro me fala da paisagem, mas não é ela.
Esse quadro é o olhar do meu amigo.
E tudo em volta emula.
Signos concretos de uma construção possível.
E só.
Pelas manhãs, uso hashis para mexer os ovos crus antes de jogá-los na frigideira wok.
Imito um Japão que posso.
Eu rito.
Só medito quando respiro.
Só me dito quando…
Aspectos poéticos de uma construção de linguagem.
As palavras são somente escolhas.
Todas as palavras do mundo se encontram à margem do abismo que divide as coisas de suas tentativas frustradas de significá-las.
Eu queria, por exemplo, definir o Amor.
E, assim como a palavra que escolhi, fiquei do outro lado do abismo, olhando para a margem de lá.
De cá, encontro apenas:
a palavra Maria,
a palavra Beatriz,
a palavra Ana,
a palavra mãe,
a palavra pai.
E mais uma ou outra tentativa.
Houve um tempo em que coloquei outras palavras nesta borda de precipício — de onde se vê, do outro lado, a coisa amor.
Mas empurrei essas palavras precipício abaixo
ao constatar sua completa ineficiência
como ponte entre um lado e outro.
Eu continuo mais reflexo que eu.
Samurai, continuo indecifrável.
Armadura, expressão distante.
Onde está o momento em que a armadura racha?
Kintsugi, carrego ouro em pó no meu alforje em busca de pintar as rachaduras que apareçam.



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