Pressa de Expandir
- Bê Sant'Anna
- Mar 28
- 4 min read

Quando você perceber que o Caminho não existe, vai ser tarde demais.
Pressa significa comprimir. Paradoxalmente, o que tentamos com a pressa é expandir, distender, dilatar. Sim, o tempo.
Porque somente com o tempo elástico daremos conta de fazer tudo aquilo que achamos que deve ser feito. E saímos feito loucos, desfocados, com pressa, fazendo as coisas nas coxas, para contarmos para nós mesmos que fizemos tudo o que era possível. Ansiosos, desenvolvemos gastrite, quando não, burnout - palavrinha contemporânea que comecei a ouvir de uns tempos para cá.
Vou contar uma coisa pra você, permita-me usar a minha história para desenvolver o raciocínio. Em 1991 eu fiz a minha primeira locução publicitária. Eu já havia entrado em um estúdio antes, (ainda com 13 anos) no Estúdio Bemol, do saudoso mestre Dirceu Cheib, mas foi mesmo a partir de 1991 que comecei a compreender o que significava o micro-tempo.
Quando trabalhamos com gravações em publicidade e propaganda, conhecemos a sutileza do que não percebemos, via de regra, em uma relação cotidiana com o que chamamos ‘tempo’. Imagine: eu comecei a gravar quando o mundo ainda era analógico, e a gente tinha que gravar uma locução em 30 segundos, tempo de um comercial de rádio e tv. Pegava o texto, ia para dentro do aquário, fone de ouvido e microfone a postos, e do outro lado do vidro o técnico gravava e media o tempo da gravação. Ao final, era frequente: “Bernardo, preciso que tire um segundo e meio dessa locução.” “Consegue tirar um segundo?” “Tira meio segundo pra mim”. Ou ainda, “o texto tá meio curto…, pode fazer ele com 3 segundos a mais, por favor?”
Sério, isso não é brincadeira, aconteceu milhares de vezes. Até que o digital entrou em cena, e facilitou o trabalho, mas ainda existia o “tira 2 segundos pra mim”. Acho que você entendeu. Com isso, acredite, desenvolvi, ao longo de 35 anos de gravações, um conhecimento e reconhecimento do micro-tempo por experiência. Quantas vezes fiz ovo quente sem medir o tempo, porque eu sabia na minha cabeça o que eram “2 minutos e meio”? É interessantíssimo como o ser humano é capaz de desenvolver habilidades com o treino específico.
Agora chego no macro-tempo. Fui apresentado a ele em 2009, quando fiz minha primeira peregrinação de 830 km, mas nos tornamos amigos inseparáveis mesmo depois que caminhei mais de 2.500 km em 88 dias, indo do Vaticano a Santiago de Compostela em 2013.
Ainda em 2009, estávamos a cerca de 20 dias no Caminho, e o Ramiro, meu amigo e parceiro que foi comigo na primeira jornada, comentou: “que curioso… você não tem a impressão de que estamos aqui tem um ano?”
E era exatamente o que eu sentia. Porque quando estamos 100% presentes em alguma coisa, em atitude de Mindfulness, para ser bem contemporâneo, em atenção plena, o tempo se distende, se dilata. Eu tenho uma teoria que vou compartilhar contigo. Claro, com a pressa que um texto de newsletter determina.
O tempo, em nossa cabeça, se dá, se mede e se percebe seguindo uma linha reta — como a abscissa X de um gráfico. No entanto, quando estamos em atitude Mindfulness, ele muda de eixo. Sai da linha do “quanto tempo passou” e entra no eixo da entrega. Sua medida passa a ser outra.
(Bom, pule este último parágrafo, se você se esqueceu do básico da geometria, ou se simplesmente não entendeu patavina do que eu acabei de dizer.)
Fato é que quanto mais estamos inertes, inseridos, apaixonados, entregues ao que estamos fazendo no agora, mais o agora demora, mais ele se expande, de forma que nossa percepção transforma um segundo em minutos, os minutos em horas, as horas em dias, os dias em meses. Vivemos 10 anos em 2020, quando ficamos confinados dentro do apartamento com nossa filha que tinha acabado de nascer, em 20 de dezembro do ano anterior - de tão imersos que estávamos na experiência divina de um nascimento de uma filha nessa circunstância. Respira, e relê a doideira que eu falei aqui neste parágrafo. E, acredite, é fato.
Vale lembrar que o mundo é, em grande medida, a nossa percepção sobre ele. E que o simples ato de observar altera o fenômeno observado — algo que a física quântica tornou famoso. Se quer pesquisar sobre isso, indico começar a fundir a cuca com “O Universo Autoconsciente”, livro do físico quântico Amit Goswami.
Com pressa, tento ainda voltar à primeira frase desse texto, para dizer que, se formos fundo no mar dessa reflexão, talvez descubramos que o tempo não existe, que ele se torna psicológico, na medida de nossa observação, o que faz do “agora”, o Tempo do Sempre. Podemos pensar que a estrutura temporal existente em linha em nossa cabeça não passa de uma boa desculpa para que a gente não surte, visto que é incompreensível (racionalmente) a noção de que não existe tempo. É como olhar o céu à noite e observar as estrelas. Não conseguimos compreender, racionalmente, o infinito. Essa ideia é tão abstrata que pintamos algo “palpável” ou “concebível” desde criança, colocando as estrelinhas, a lua, e um horizonte no papel. E isso limita nosso olhar racional sobre essa abstração descomunal, a noção de infinito, de universo, de cosmos.
O que quero com a primeira frase, é que tente perceber o Caminho no tempo do sempre, na distância entre seus dois pés no movimento de um único passo. Porque em uma concepção Zen, todo o Caminho está em um passo. Se der esse passo de modo perfeito, juro, ele será eterno.



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