Pensar Nada
- Bê Sant'Anna
- Jun 27
- 2 min read

– Shishido, qual o segredo para chegar os 79 anos com essa energia e esse espírito? - perguntou Gilberto.
– Pensar nada (Think nothing). - respondeu Nori-san.
Harunori Shishido é um japonês, Professor Emérito da Universidade de Kagawa, responsável pela NPO, organização não governamental que cuida institucionalmente e logisticamente do Caminho de Shikoku, bem como pela sua divulgação.
Conheci o Nori em 2019, quando fiz a peregrinação, e nos tornamos bons amigos. Tão amigos que ele veio para a Europa caminhar alguns dias com seu melhor amigo, Toya-san, que conheci em Tokyo, e ele fez questão de me mandar mensagem e separar 5 dias para caminhar comigo nos últimos 115 km do Caminho Francês de Santiago. Sete anos depois de termos nos conhecido. Um matemático maravilhoso.
Gilberto Maluf, da área da logística e administração, teve imediata sinergia com ele, apesar da diferença de idade e de seu silêncio japonês. Nori-san é um karesansui (枯山水). Traduzindo literalmente, paisagem seca - aquele jardim japonês que conhecemos com cascalho, areia e/ou pedras, desenhado pacientemente pelo homem, em tentativa estética de emular a natureza e dizer o que as palavras não atingem. Traduzo o karesansui como um koan visual. O koan, você sabe, são aquelas charadas, aquelas histórias budistas que desafiam em alguns casos a lógica, e instigam a resolução por meio da meditação quando a lógica não mais alcança o resultado que se busca.
Pois bem. A resposta de Nori (para os íntimos - afinal é este seu apelido de infância) é um koan em si. Uma meditação frente a um jardim Karesansui. Gilberto quase escorregou, quando comentou comigo: – Você ouviu a resposta dele? “Pensar em nada”.
Eu disse, não, Gilberto, ele não falou “Pensar em nada”, ele falou “pensar nada”. Quando pensamos em nada, tem um objeto a refletir sobre. Quando pensamos nada, nada reflete. É como olhar para a parede branca quando queremos pentear o cabelo (menos eu, no caso). Fato é que quando nada há para refletir, eis não-pensamento.
Para mim, especialmente, é muito interessante esse conceito. Estudo a filosofia oriental desde os 9 anos quando comecei a fazer Karatê. Em 2002, quando entrei na faculdade de filosofia, me interessei cada vez mais pela filosofia oriental, e depois de 2019 aprofundei ainda mais meus estudos nesta área, reconhecendo a experiência sensível como grande aliada nesse caminho. Ter feito a peregrinação que um dos maiores monges japoneses já fez para seu processo de iluminação trouxe novas luzes sobre meus estudos nesta linha. Daí, quando ouço o Nori dizendo isso, silencio… Estive com ele no templo 86 enquanto ele meditava num Karesansui (aliás, é a foto que ilustra esse texto de hoje). Visitei o Ritsurin Garden, um dos jardins mais emblemáticos do mundo, com ele como guia.
É ele, mesmo, o Karesansui. Sabe? Um não-seco.
Meditei sobre a resposta de Nori e sobre o jardim japonês: o que rega um jardim como este é o arroio do olhar.



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