Para Fernando, Nestor, Manoel e Beatriz.
Em setembro de 1990, depois de nove meses de intensa preparação, 20 músicos, atores, dançarinos, bailarinos, cantores, instrumentistas subiam no palco do Teatro do SESI para a estreia do musical Manoel, o audaz. Com direção geral de Nestor Sant’Anna - meu pai, que hoje completa 71 anos - e roteiro de um de seus parceiros de sonhos e ideais, Fernando Brant. Dois grandes pensadores e agitadores culturais, Nestor Sant’Anna e Fernando Brant passaram a vida sendo vozes de um mundo que eu ainda não conheci. Um mundo onde a cidadania, a honra, a verdade, a justiça são Valores inabaláveis. A fala dos dois, que vem desse mundo sonhado por eles e por tantos parceiros que comeram juntos a poeira da estrada por onde passou o jipe Manoel, ecoa em meu coração até hoje, e é o discurso que, quero crer, minha filha de 4 anos vai ouvir de mim e vai pronunciar de seu jeito aonde o povo está.Fernando embarcou em definitivo no Manoel, o audaz. Todos nós embarcaremos.Em meus sonhos mais íntimos, do alpendre da casa do meu pai - que foi vendida em 91 para custear a palavra firmada com toda a produção do espetáculo, já que o então Plano Collor levou não só a poupança, mas todos os patrocinadores sem palavra -, eu me posto em meditação. Faço uma oração para o meu pai, que hoje completa mais um ano de vida e tem o presente de poder me ajudar a construir o discurso que ainda podemos fazer juntos pra minha filha. Faço uma oração para o povo brasileiro, que passou os últimos 25 anos ainda sem compreender que cidadania é mais importante que poder de compra de eletro doméstico e faço uma oração para o Fernando Brant, pra que, tendo finalmente passado pro lado de lá de suas estradas poéticas, nos abençoe verso, nos abrace rima, nos perdoe ritmo, por sermos tão lentos em cadência e por termos sim, “medo de amar”.No jornal (foto acima) que divulgava o espetáculo, a palavra de Fernando, que falava não de 2015, do que viveríamos 25 anos depois, mas do que acontecia em 1990. Vale ler pra refletir sobre o pó da estrada, enquanto você escuta a música acima. Parabéns, Pai vovô.
Somos gratos, Fernando.Com a palavra, Fernando Brant (1990):
“Nosso dia-a-dia é ler os jornais testemunhar a miséria das ruas ouvir a voz suína dos poderosos conviver com o coro uníssono dos que declaram inevitável a predominância da ignorância, da corrupção e da falsidade. Contra esse tipo de ideia cimentada na inconsciência nacional é que Manoel, o audaz (o jipe, a música, o musical) levanta sua poeira.Que Brasis se escondem atrás da visão oficial?Que pessoas, que corações e sentimentos pulsam nas casas e nas ruas, o que se passa no interior da gente deste país?Ligar os motores do Manoel - além de musical ato de coragem - é interrogar tempo e espaço mundo real e mundo interior.É procurar conhecer nossa vocação, nosso destino.Mas afinal, Manoel, o audaz o que será?É viagem, é cor, é ventania.São vozes e corpos que cantam dançam falam.São pessoas no palco, na vidabrasileiros de qualquer idade, homens e mulheres,percorrendo vários caminhos que levam a várias verdades.A verdade é plural. Muitos países, muitas músicas, muitas culturas desabrocham desta longa estrada de pó e esperança.A liberdade tem quatro rodase um motor de não sei quantos cavalos.O povo é sábio, é simples, é bommas precisa se descobrir cidadão, senhor de direitossenhor de seu nariz.Quanta vida corre além dos escritórios e das cidades;quanta dignidade existe além dos conchavos de gabinetes;quanta honra, quanta generosidade brota do peitoda maioria dos brasileiros.“Quanto mais economia, mais ditadura;quanto mais cultura, mais democracia”: a reflexão de Betinho deságuana trajetória destes jovensque no teatro encenam a realidade.A realidade tem dentesmas com trabalho e sonho podemos domesticá-la.Ainda mais quando o sonho vem em forma de música e dança,esses dons humanos de cativar os deuses. Esses donsque os brasileiros, com maestria, cultivam para explicar o mundo.Com música e dança nós manoelamos.Manoelar é não aceitar o prato feito, o pré conceitoa história oficial, a versão pronta e acabada. É ir lá.É perguntar, experimentar, duvidar.Ver e ouvir.Conversar, aprender. Tentar.É viagem de qualquer geração que tenha sonho nos olhos e no coração.É inventar caminhos, conhecer pessoasprocurar a alma do homem e das coisas.E descobrir no fim da estrada que existe um país e um povoque merecem mais respeito.”




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