Panela de Pressão

Outro dia fomos fazer um programa interessante: levar a Maria para experimentar o "optimist" - um barquinho a vela pequenino, que era usado pelas filhas do Amyr Klink quando ele as levava para passar as férias na Antártica.
Sim, só o Amyr Klink para fazer isso: levar as filhas para passar as férias no meio do gelo, enfrentando a travessia do Drake, animais selvagens, icebergs, tempestades e clima inóspito. Depois as pessoas se perguntam por que a Tamara Klink tem ideia de atravessar o oceano com a Sardinha - seu pequeno barco a vela.
Maria tem um livro, muito interessante, escrito pelas meninas do Amyr ainda crianças, com a ajuda da editora: Férias na Antártica. Nele, Laura, Tamara e Marininha contam as peripécias de sua família nos passeios que fizeram ao continente gelado: uma verdadeira aula de ecologia, amor ao mar, e descobertas infantis. Lindo.
Tanto que já lemos para ela umas 39 vezes.
Foi por isso que a Ana procurou a oportunidade de uma aula gratuita, aqui perto, no Porto de Leixões, de navegação com o optimist. O clube naval faz essas aulas para atrair novos alunos e pais para o primeiro contato com o mundo da vela e da navegação. Muito interessante, por sinal. De 10 às 13h, as crianças ficaram no mar, na borda do porto a experimentar o conceito, o vento, o vocabulário relativo às navegações, os primeiros truques das cordas, do mastro, da vela, o próprio mar.
Maria ficou encantada. Espero que o encantamento passe logo, porque é um esporte bem caro.
Na saída, resolvemos almoçar na casa de um casal amigo nosso, os meninos deles também fizeram a aula experimental.
E onde está a panela de pressão?
Estava em cima do fogão deles. Depois de almoçarmos, a dona da casa resolveu fazer um feijão para a semana, e enquanto conversávamos, depois do nosso almoço, colocou o feijão na panela de pressão.
Quando ninguém esperava, as crianças já haviam terminado um filme da Disney e estavam novamente ao redor da nossa mesa. Todos reunidos na copa-cozinha, e aconteceu.
Parece-me que a borracha da tampa da panela de pressão estava mal colocada. O que fez com que, de repente, o vapor transformasse a panela de pressão em um foguete do Elon Musk. Ela decolou confiante do Cabo Canaveral como Priscila, a Rainha do Deserto, e inadvertidamente deu ré para aterrissar a meio metro da minha filha Maria e de um dos filhos da dona da casa, Lucas.
Durante o voo não tripulado, um dos convivas e eu tivemos o reflexo de alcançar as crianças e trazê-las imediatamente ao colo, de tal forma que, quando a aterrissagem se deu, as crianças estavam no meio do caminho entre o ponto de aterrissagem e as nossas respectivas cadeiras.
As quatro paredes da cozinha, além do teto, se transformaram automaticamente em telas neo-impressionistas, que receberam um pontilhismo cor de feijão jalo. Lembrando uma banana madura pintadinha, ou as costas do meu pai.
Eu adoro feijão.
No teto, achei over.
Mas tirando a brincadeira, fiquei muito impressionado como tudo se passou sem maiores consequências. O resultado podia ter sido muito desastroso, para dizer o mínimo. Mas o anjo da guarda das crianças e o nosso estavam todos alertas.
Pressão vem do latim premere, apertar. Da mesma raiz vem expressão: ex premere, apertar para fora. De manhã, a Maria passou três horas aprendendo a lidar com o vento, que é pressão com escape, e por isso move um barco. À tarde, a panela decolou. Não é a pressão que causa problema. É a falta de válvula.
De uma hora para outra, a qualquer tempo, tudo pode mudar. Não quero pensar que vivemos em uma panela de pressão. Prefiro pensar que os anjos estão conosco, e que o mundo que não dá tréguas tem águas geladas e ferventes para quem nele habita.
No fim das contas, o optimist que salvou o dia foi o colo do papai.



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