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O Peso que Importa

  • Writer: Bê Sant'Anna
    Bê Sant'Anna
  • 2 days ago
  • 3 min read

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Eu já suspeitava. Mas depois de 2.500 km a pé, descobri que o peso mais perigoso não é o que machuca os ombros. É o que altera a direção.


Demorei muitas centenas de quilômetros para perceber isso. O peso não se relaciona somente com esforço físico – mas ninguém fala sobre isso, já reparou?


A maioria fala sobre o peso da mochila como um problema dos ombros. Talvez porque, à distância, ou na superfície de análise, seja isso o que parece. Mas uma mochila ajustada de verdade não pesa nos ombros. O peso desce. E repousa nas ancas, nos ossos do quadril, nessa estrutura silenciosa e antiga do corpo, responsável por sustentar movimento e, sobretudo, direção.


Existe uma diferença colossal entre carregar um peso e deixar que ele interfira no seu rumo.


Quando caminhei do Vaticano até Santiago de Compostela, por 88 dias, houve dias em que minhas pernas estavam fortes, a respiração boa, o corpo respondia bem — mas eu podia sentir que alguma coisa estava errada: não era fadiga muscular ou mesmo falta de foco. Não, não era peso nos ombros.


Era algo que se relacionava diretamente com a minha direção.


O peso começava a me puxar discretamente para um lado. O corpo compensava sem que eu percebesse. Um pequeno desalinhamento na mochila alterava a forma como eu caminhava quilômetros e quilômetros. E aquilo me atravessou de um jeito difícil de explicar para quem nunca caminhou muito tempo sozinho. Aquilo me falava de um incômodo pessoal e intransferível, uma analogia clara sobre algo que te empurra para um caminho que não é o seu.


Percebi muito claramente que também assim acontece na vida.


Nem todo trauma nos derruba. Alguns apenas nos inclinam. E isso não serve somente para traumas. Há quem faça isso conosco. Pessoas próximas que estão ali, ao lado, presentes, muitas vezes diariamente e que insistem, consciente ou inconscientemente em fazerem o papel de um peso que te desequilibra, que te empurra, e às vezes, para onde você sequer quer ir.


Há pesos que não impedem o movimento. Apenas mudam a direção da nossa existência sem que percebamos. E o mais silencioso deles não tem nome fácil — é aquela sensação de caminhar, de mover-se, de agir, e ainda assim sentir que o rumo não é bem o seu. Como uma bússola que responde, mas está levemente descalibrada. Soa familiar?


As minhas dores não doem em ninguém. As dores dos outros não podem doer em mim. A não ser que eu pise o chão do outro. Ainda assim, todas são legítimas para quem as carrega. Pergunto-me com muita frequência quem sabe medir a densidade íntima da cicatriz alheia. E minha resposta a essa pergunta varia ao longo do tempo.


Aprendi caminhando que existem feridas que não aumentam o peso da mochila. Elas alteram a biomecânica da alma — a forma como você transfere o esforço, como distribui o que carrega, como o corpo encontra ou perde o seu eixo. Você sabe: alma, "aquilo que move", etimologicamente falando. E o que move pode ser desalinhado sem que ninguém veja de fora.


Talvez por isso eu tenha me lembrado tantas vezes de uma frase de Simone Weil durante a peregrinação: "L'action est l'aiguille indicatrice de la balance. Il ne faut pas toucher à l'aiguille, mais aux poids."


"A ação é o fiel da balança que mostra o equilíbrio. Não devemos mexer no ponteiro, mas nos pesos." — em minha tradução livre.


Isso me atinge, e profundamente.


Porque durante muito tempo achei que amadurecer fosse corrigir comportamento, controlar reação, administrar escolhas. Como quem tenta endireitar o fiel da balança com os dedos.


Mas o Caminho, o caminhar, experienciar a estrada, o terreno, a chuva e a direção interna e externa, me ensinam outra coisa. O problema raramente está no ponteiro. Está nos pesos invisíveis que deslocam o equilíbrio inteiro.


Depois de muitos quilômetros, a peregrinação deixa de ser paisagem. Ela vira exame. Geralmente quando o interno e o externo se fundem. Não um exame de força física — mas de direção. O corpo confessa a alegoria do que internamente se mostra. Medos alteram sua pisada. Culpas fazem você acelerar sem necessidade. Há vazios que impelem você a carregar coisas demais. E há memórias que continuam decidindo rotas dentro de nós, muitos anos depois de terem acontecido… 


Talvez seja por isso que o Caminho seja tão difícil de explicar.


Hoje, quando penso nos pesos que carrego, já não me pergunto apenas o quanto eles doem. Pergunto para onde eles estão me levando.


Porque depois de mais de 6.000 km a pé, em grandes, enormes peregrinações, entendi que o peso mais perigoso nunca foi o que machucava meus ombros.


Sempre foi o que alterava minha direção.





 
 
 

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