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O Peregrino No Espelho

  • Writer: Bê Sant'Anna
    Bê Sant'Anna
  • May 23
  • 2 min read

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Existe um espaço entre nós e a nossa imagem no espelho. E ultimamente tenho pensado muito sobre ele.


Meu caro amigo, Clóvis de Barros Filho, escreve, no prefácio do Eu Caminho, que o mundo é um espelho. Talvez porque toda experiência revele alguma coisa sobre nós mesmos. 


Mas tenho suspeitado de outra coisa: talvez o espelho não mostre apenas quem somos agora. Talvez ele revele também tudo aquilo ao que ainda estamos entrelaçados.


Já reparou que existe um pequeno vazio entre você e sua imagem refletida?


A ótica — esse ramo da física que tenta compreender a relação dos corpos no espaço — me faz pensar muito nisso. Nesse percurso invisível entre nós e aquilo que vemos de nós mesmos.

Na física quântica existe um fenômeno chamado entrelaçamento quântico. Einstein chamou isso de “ação fantasmagórica à distância”.


De modo simplificado, duas partículas podem permanecer profundamente conectadas mesmo separadas por distâncias inconcebíveis. Vale ler Amit Goswami. Não sei explicar física quântica. Mal consigo explicar a mim mesmo. Mas às vezes penso que nós também somos assim.


Entrelaçados não apenas às pessoas que passaram pela nossa vida, mas às versões antigas de nós mesmos. O menino que teve medo. O homem que precisou partir porque não sabia ainda o que significava ser pai. A versão de nós que ficou esperando um pedido de desculpas. A mulher que preferia permanecer no desconforto que conhecia, a arriscar descobrir outro desconforto qualquer — ou finalmente algum conforto. Aquele que precisou endurecer para sobreviver.


Não sei.


Talvez nenhum deles desapareça completamente. Continuam produzindo pequenos deslocamentos invisíveis na direção da nossa vida. Em tempo real. Como reflexos silenciosos daquilo que ainda habita em nós. Talvez seja por isso que algumas pessoas evitem o espelho em certos períodos da vida.


Me lembro da minha mãe dizendo, na minha pré-adolescência:


— Quem olha muito o espelho vê o capeta.


Nunca me esqueci disso. Na época achei que ela tivesse medo que eu me tornasse narcisista.


Hoje já não sei. Talvez ela tivesse medo que eu me visse de verdade. Porque às vezes não é o rosto que assusta. É perceber quantas versões nossas ainda habitam silenciosamente aquilo que vemos. Algumas continuam caminhando dentro da gente. E talvez por isso o peregrino que encontramos no Caminho nunca devesse servir de espelho. A comparação quase sempre machuca. Mesmo no Caminho de Santiago.


Talvez o entrelaçamento quântico seja mais do que uma metáfora bonita ou esotérica.


Talvez seja uma linguagem possível para falar da memória, da identidade, da permanência afetiva e dessas versões antigas de nós mesmos que continuam, silenciosamente, alterando a direção da nossa vida.


Porque existe um espaço entre nós e a nossa imagem no espelho. Ultimamente tenho desconfiado que esse espaço nunca esteve vazio.





 
 
 

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