O Durex de Deus
Não foi à toa que Lulu das Ilhas me deu um cata-vento de presente.
No dia do lançamento do livro V ENTE, meu segundo livro publicado, ela trouxe esse cata-vento da Ilha de Florianópolis pra mim, regalo simbólico, mágico, místico, lindo.
Pois bem: no dia mesmo, quebrou uma pá.
A azul (sintomaticamente). Na volta, depois de ventar comigo no lançamento, com o apoio de quase trezentas pessoas que lá foram prestigiar o Novo Céu, a instituição apoiada pelo lançamento do livro e este autor aqui, que vos tecla.
A vida tem disso. Muitas pás se quebram assim, pelo excesso de energia. Até de amor. Acontece que coloquei o cata-vento do lado do computador, na mesa do meu escritório e ele nunca mais tinha ventado. Ou, melhor dizendo, nunca mais tinha catado vento algum. Com a pá quebrada, estava aqui pra que eu o visse todos os dias e 1– servisse de inspiração, por ter sido dado com tanto carinho por uma amiga muito especial, uma referência de ser humano muito ligada às Virtudes maiores que todos almejamos e 2– servisse de pulga, que atrás da orelha do real, me dissesse todo dia sobre a imperfeição das coisas. Até das mais lindas, das mais puras, dos sonhos, e dos mesmos Valores que, perfeitos, são inatingíveis por nós, cheios de defeitos... Um lembrete da falta. Do buraco existencial.
Interessante é que hoje, depois de quase um ano vendo esse totem do afeto partido, decidi intervir, finalmente. Com um movimento simples, abri a primeira gaveta da escrivaninha e ao alcance das mãos e dos olhos, um DUREX me fitava óbvio, jocoso, a espera da constatação da minha idiotice plena. Por mais que não quisesse colocar um DUREX na pá, pra não deixar marcado ali o "defeito" do meu Sonho em forma de objeto, eu esperei um ano pra constatar, surpreso, que, com o Vento, o DUREX some.
Atônito, percebi o quanto isso me serve de exemplo. Eu não queria colocar o DUREX pra não marcar ainda mais o
que ali estava e me incomodava. Em compensação, com o
, meu cata-vento não servia a sua função primeira: catar vento... Sendo o Vento, pra mim, metáfora óbvia de dEUs, faça você, agora, seu exercício filosófico pra estabelecer sentidos ao movimento pessoal que às vezes nos passa obliterado por nossa visão turva da realidade próxima.
Alguns pontos me causam estrelas:
Às vezes (?), assumir um
é sinônimo de movimento.
A imobilidade é mesmo inimiga do possível.
Posso, sim, amar um DUREX.
Sigo. Agora ventando de novo.




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