Nome

Faça o teste. Pergunte a alguém quem ela é.
Ela vai responder o nome. Quase sempre. Antes de qualquer outra coisa, antes de ela dizer o que faz, de onde veio, o que ama - ela traz um significante que outra pessoa escolheu por ela, quando ela sequer sabia falar. Quando você ainda nem tinha pensado no significado que ia dar pra ele.
Mas o seu nome não é você.
Repare que isso é evidente e ao mesmo tempo custa a ser incorporado. Você não escolheu o seu nome (pelo menos, teoricamente). Não estava presente na conversa em que ele foi decidido. E mesmo assim é a primeira coisa que você entrega de bandeja quando alguém quer saber quem você é.
Rubem Alves escreveu uma crônica sobre isso, e ela é das mais bonitas que já li. Ele conta o costume de um povo que dá dois nomes a cada pessoa. O primeiro é o nome público: gritado, escrito, conhecido - e que ele chama de mentira socialmente necessária. O segundo é secreto, só a própria pessoa sabe, e é ali que mora o ser verdadeiro. Assim ninguém fica preso naquilo que foi guardado no nome quando o nome foi dado.
"O nome é uma gaiola" - diz ele. E acho esse postulado simplesmente sensacional. Porque ainda assim, podemos voar.
Como sempre, fui procurar a raiz. E encontrei duas coisas interessantes.
A primeira é que nome é uma das palavras mais antigas e mais teimosas que existem. Nomen em latim, ónoma em grego, nāman em sânscrito, name, nombre, nome. Cinco mil anos de história e a palavra quase não se mexeu. A palavra que dá nome ao nome é das que mais resistem ao tempo.
A segunda me pegou de jeito. Ignomínia é in + nomen. Literalmente: ficar sem nome. Para o romano, a desgraça máxima, a infâmia, era perder o nome. Olha o tamanho da encrenca que isso deveria ser. O nome é uma gaiola - e ficar do lado de fora dela é a definição latina de desonra. Nós queremos sair e ao mesmo tempo, quem tem algo a perder, tem pavor de ficar sem.
Isso me lembra do monge vietnamita, Thich Nhat Hanh, que dizia uma coisa que eu nunca mais consegui deixar de lado. Olhe fundo para uma flor e você verá que ela é feita inteiramente de elementos não-flor: o sol, a chuva, a nuvem, a terra, o tempo. Tire tudo isso e não sobra flor nenhuma. Ao tocar a flor, você toca a nuvem - e se a nuvem fosse retirada dali, a flor desabaria na hora. Acho esse conceito fantástico e penso em que medida somos nuvem, estrelas e sonhos.
É como se o nome recortasse. Ele traça uma linha e diz: isto aqui dentro é flor, isto aqui fora não é. Só que aquilo que ficou de fora é exatamente aquilo de que a flor é feita. O sol, a chuva, a nuvem, a terra. O Cosmos.
O nome não descreve. O nome separa. E ao separar, ele apaga a matéria da coisa. Isso vale para a flor. E vale muito mais para você. A gente carrega, na verdade, três camadas. O nome é o que te deram. O apelido é o que os outros fizeram com ele. E a marca é o que você construiu - aí sim, com as suas mãos. Eu fui batizado “Bernardo Moura de Sant'Anna”. Assino “Bê Sant'Anna”. Mas me sinto muito mais “Papai”.
Fica a pergunta: se alguém te perguntar hoje quem você é, e você não pudesse dizer o seu nome - o que você diria?



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