Mesmo
- Bê Sant'Anna
- Sep 30, 2012
- 2 min read
Meus escritos
não são belos como a Gabriela, inteligentes como a Serpa, mágicos como as histórias da Guiomar, fortes como a minha irmã. Não são amantes da vida como o Mastrocola, sensíveis como a Raquel, indignados como a Rachel, exemplos como o Wernek. Nem de longe coloridos como a minha mãe, audazes como o meu pai, profundos como a Izabelle, ricos como o Eike. Não são pops como o Michael, jazzísticos como o Nelson ou brasileiros como o Adelson. Meus escritos não são páreo para o humor da Laura, não são filosóficos como Rubem, não são densos como Zezito. Ou rápidos como a Menina Vento, ou céticos como a Yara, ou frágeis como as flores do meu bonsai... Meus escritos não conseguem captar o hiato das viagens criativas de Beatriz, minha filha de um ano e sete meses. Meus escritos não são nada se não o amor perdido. Escrevo para encontrá-lo. Escrevo como quem corre uma meia maratona para ganhar a oportunidade de um namoro. Escrevo para ser evo, o eterno, o masculino da eva, a completude da beleza feminina, a faca no queijo, o leite no café, o ovo no pão, o azeite no tomate. Meus escritos não são nada. Nem sei porque leu até aqui. Meus escritos são o desejo da beleza indizível da Gabi, da perspicácia ousada da Serpa, da fantasia expansiva de Guiomar, da potência firme da minha irmã. Meus escritos querem alcançar o amor da vida do Mastrocola, a sutileza equivocada da Raquel, a indignação impossível da Rachel, a beleza do pai Wernek. Meus escritos queriam ser o lápis de cor da minha mãe, queriam ser o jeep do meu pai, o lago da Izabelle, o iate do Eike. O Billie Jean do Michael, a Ella do Nelson, o brinquedo de linha e latinha do Adelson. Meus escritos queriam ser a picância da Laura, a velhice do Rubem, a sabedoria do Zé Coelho. Queriam meus escritos ter os pés e o coração da Menina Vento, os cabelos da Yara, a seiva do amor de um pai que dói. Meus escritos são para Beatriz ler. Meus escritos são minha peregrinação pelas palavras me dadas por Deus. Que compilo, que empilho, que empalho, que, paspalho, só sei chorando escrever.
Nas páginas em branco, meu amor consegue ser ainda maior. Mas muito mesmo.




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