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A Gratidão, o Turista e o Peregrino

  • Writer: Bê Sant'Anna
    Bê Sant'Anna
  • Jul 5
  • 3 min read

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Outro dia me peguei pensando que talvez exista uma diferença fundamental entre quem consome uma experiência e quem a vive. E, curiosamente, essa diferença pode estar escondida dentro de uma única palavra: gratidão.

Se formos buscar na raiz da palavra “gratidão”, encontraremos “gratia”, que significa graça, bênção ou dádiva.

No entanto, existem outras palavras que participam da construção desse significado e merecem ser observadas. Porque, enquanto a graça se refere ao favor, ao benefício, ao dom recebido livremente, a gratificação nos fala de algo diferente. Ela se relaciona à recompensa, à retribuição por um ato, àquilo que é conquistado por meio de uma ação.

Essa diferença me lembra muito meus alunos de Comunicação na faculdade e na universidade. E você vai entender por quê. E também por que isso se relaciona tão profundamente com a peregrinação.

Existem saberes que são coletivos. Existem construções que não passam por moedas de troca nem por relações de consumo. A sociedade contemporânea está tão habituada à lógica do consumo que ela acaba contaminando áreas que nada têm a ver com esse tipo de intercâmbio.

Vou dar um exemplo.

Ainda em 2002, quando comecei a dar aulas em uma faculdade, muitos alunos já apresentavam este sintoma: “estou pagando, eu que mando” ou “estou pagando, então é assim que eu quero”.

O problema é que um curso universitário não funciona como um produto de prateleira. Não é um liquidificador que você escolhe pela marca, pelo modelo ou pela cor e leva para casa exatamente como imaginou. A formação depende tanto do estudante quanto do professor. E muitos alunos não entendiam isso.

Um curso universitário é mais parecido com uma peregrinação.

Um peregrino precisa fazer sua parte para peregrinar. Não existe o “vou pagar para ser peregrino e tudo tem de acontecer da maneira que desejo”. O princípio número um da peregrinação é simples: depende do seu caminhar.

E como depende do seu caminhar, depende também da sua postura, da sua compreensão do que significa estar ali, do seu estado de espírito, da sua abertura para os ritos, os mitos, a história, os encontros e os aprendizados que surgem ao longo da jornada.

Eu sempre dizia aos meus alunos:

— Amiguinhos, vocês acham que este curso é como comprar um carro?

Não.

No máximo, vamos entregar algumas peças e um manual de instruções. Em certos momentos vamos ajudá-los a entender como montar o motor, ajustar uma engrenagem ou compreender o funcionamento do conjunto. Mas a construção continua dependendo de vocês.

O professor e os alunos precisam estabelecer um acordo que passa pela gratificação. Ou seja, pela compreensão de que existe uma parte que depende do esforço do estudante para que a recompensa seja alcançada.

Com o peregrino acontece algo muito parecido.

Muitas — mas muitas mesmo — vezes os peregrinos acreditam, sobretudo por estarem em um universo ligado à fé, que apenas a graça faz parte da experiência. Que tudo deve ser recebido livremente, independentemente de suas ações.

Mas a peregrinação também não é uma commodity. Não é um produto de mercado. Não é algo que possa ser consumido passivamente.

A peregrinação é construída passo a passo. E seu sentido depende do investimento que fazemos nela.

Quantas e quantas vezes vi isso nos últimos dois meses desse ano de 2026, quando fui de Valença do Minho a Santiago com minha filha mais nova e com a Ana, e depois de Sarria a Santiago — duas das rotas mais movimentadas do Caminho.

Pessoas terminavam suas refeições nos bares, levantavam-se e seguiam adiante, deixando sobre a mesa pratos, copos, xícaras, papéis, talheres e lixo para que tudo fosse recolhido pelos atendentes.

Parece pouco. Parece apenas um gesto banal. Mas não é.

Aquilo se apresentou para mim como um claro indicador da forma como aquela pessoa estava vivendo o Caminho. Como consumidora. Não como peregrina. Porque o turista exige. O peregrino agradece.

E somente quem aprende a agradecer pode compreender plenamente tanto a graça quanto a gratificação. Porque uma não exclui a outra. Recebemos muito ao longo do Caminho. Recebemos acolhida, paisagens, encontros, aprendizados e até aquilo que jamais poderíamos ter planejado.

Mas existe uma parte que ninguém pode fazer por nós. Existe uma parte que depende da nossa postura diante da jornada. Talvez seja essa a diferença mais profunda entre a graça e a gratificação.

A graça pode ser recebida. A gratificação precisa ser construída. O Caminho oferece muito. Mas oferece mais a quem aceita participar da experiência em vez de apenas consumi-la.

Porque, no fim das contas, o turista exige. E o peregrino agradece.


 
 
 

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