Fame

Ontem completei 41 horas sem comer.
E foi mais difícil do que eu imaginava, por um motivo simples: eu não me preparei. Entrei no jejum como quem entra na chuva sem olhar o céu.
E foi no meio disso, me sentindo fraco e sem energia, que eu fui parar na palavra.
Eu procurei. Fome vem do latim fames. No português antigo, a palavra era fame — e ainda é, do outro lado da fronteira, bem aqui do lado: o galego diz fame. O espanhol hambre, o catalão fam, o francês faim, o italiano fame. Quase só nós trocamos o a pelo o - talvez pelo formato da boca aberta (isso foi uma piada) - fome.
Nós e os romenos, que dizem foame. Duas pontas opostas da România, Portugal e Romênia, sem contato nenhum, fazendo a mesma coisa com a mesma vogal. Por que o "a" virou "o", ninguém sabe ao certo. Há quem proponha a influência do "m" que vem logo depois, ou a atração de uma palavra vizinha como come. Fica no possivelmente.
Mas repare no que aconteceu com a família, porque é interessante: faminto; famélico; esfaimar.
A palavra esqueceu de onde veio. Os derivados, não. Fome apagou o próprio "a", mas faminto guardou. Como se só a palavra faminta soubesse dizer o próprio nome.
Fato é que, em português, fome não ficou presa à barriga. Os dicionários registram o alargamento: necessidade de comer, depois falta, penúria, míngua — e, por extensão, desejo ardente. Daí a gente diz fome de justiça, fome de conhecimento, fome de mundo. Fome de liberdade. Fome de viver.
E é aqui que eu quero parar, porque tem uma distinção que mudou o meu dia. Necessidade vem de necesse, de ne cedere: o que não cede. Não negocia, não recua, não abre mão. É o corpo cobrando, e ele cobra sempre no mesmo tom. Desejo vem de desiderium, e a leitura mais aceita é de sidere — dos astros. Os romanos liam o céu para saber o que vinha pela frente. Desejar, então, seria ficar sem essa leitura: deixar de ver a estrela e sentir falta dela. Freud explica. É o contrário exato de considerar, cum sidere, que é olhar os astros junto.
(Sou obrigado a dizer que essa etimologia, linda como é, não é consenso entre os latinistas. Mas eu escolho a beleza, sobretudo a poética.)
Então a diferença entre as duas não é de tamanho. É de natureza: a necessidade é a falta que não cede. O desejo é a falta da estrela.
A primeira se resolve com um prato. A outra, só caminhando. E é por isso que fome de liberdade e fome de viver não se matam comendo. Não são necessidade. São desejo — alguém que perdeu a estrela de vista e vai atrás. Alguém que começa a duvidar e decide agir.
A primeira vez que parti eu não sabia o motivo. Meus passos me deram um. A segunda vez, quando fui do Vaticano a Santiago, achei que sabia e, mesmo assim, minha ação revelou o que eu ainda não conseguia ver.
Sabe o que eu percebi ontem, na hora mais chata do jejum?
Que jejum não é fome. Jejum é fome com hora para acabar, é falta escolhida. E foi difícil porque eu tratei uma escolha como se fosse um acontecimento — não me preparei para uma coisa que eu mesmo marquei. A gente se prepara para a viagem, para a prova, para o inverno. A gente treina o corpo, separa o dinheiro, compra a bota certa. Mas eu fiquei pensando nisso a noite inteira:
Quem se prepara para o desejo?
A necessidade não dá para preparar - ela chega, cobra e não cede. Tem hora que só um Haikai pra me salvar:
Céu encoberto:o astrolábio beija a estrela que sonha.



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