Escuta
- Bê Sant'Anna
- Apr 4
- 2 min read
Do gesto ao contexto

Era uma vez a escuta, era uma vez um gesto.
Às vezes, peço desculpas.
– Começa de novo?
– É que eu estava refletindo e não ouvi nada do que você disse.
Você leu corretamente. Eu não escrevi “não escutei nada do que você disse”. Eu sequer ouvi.
É mais grave do que a gente pensa. Sim, ouvir é uma coisa, escutar é outra. Não, não acho que ouvir é involuntário. E vou dizer o motivo. O fato de estarmos presentes nem sempre faz com que a gente escute o que está à nossa volta.
São muitas as vezes que eu peço desculpas à Ana e digo que simplesmente sequer ouvi o que ela falou, quanto mais escutar…
Eu percebo claramente a diferença entre ouvir e escutar e acho, sinceramente, que escutar é, antes de tudo, um gesto. Escutar não é algo que simplesmente acontece — é algo que você faz.
Podemos aqui partir do cognoscível… e caminhar em direção ao ato.
O gesto externo é físico e de fácil percepção, inclusive visual. Mas o gesto atencional é interno e nem sempre percebido. Nem pela minha mulher — que tudo vê.
Eu estou falando do gesto da atenção, do gesto interior. Enquanto a sensibilidade pode permanecer no campo do abstrato, o gesto demanda corpo, intenção, presença, escolha.
O gesto é o passo dos sentidos.
Minha sensei, Monja Simone Keisen, sempre me pergunta: você já lavou a louça? Porque se trata disso. Antes de iluminar, lavar a louça. Depois de iluminar, lavar a louça.
Lavar a louça é escutar.
É agir.
Interessante pensar que, paradoxalmente, o gesto é um ato de suspensão. Se por um lado suspendemos nossa ação, por outro agimos para, com foco, dar voz à ação do outro, seja ela discursiva ou não. Reposiciona-se a atenção, colocando o outro em primeiro lugar, mas assume-se a necessidade de agir em favor do outro através da escuta.
Em muitos casos, suspendemos inclusive a reação imediata em favor do espaço do outro, do contexto do outro, dos valores, argumentações e demandas alheias.
Não alhures, cá.
É aqui, e em atitude, que posso me contextualizar. Que me redefino na interpretação. Que estabeleço relação. Que promovo a ponte que me conecta aos sentidos, e através da qual compartilhamos o mundo.
Ouvir pode ser agir. Escutar com certeza é.
Talvez escutar não seja apenas dar atenção ao outro…
mas permitir que o outro exista em nós, sem interrupção.
E isso exige mais do que presença.
Exige gesto.



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