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Cheiuras

Writer: Bê Sant'Anna
Bê Sant'Anna
Jan 25, 2015
1 min read
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Há um livro escondido nas teclas do meu computador. Ele espera, pacientemente, os mais de dois milhões e quinhentos mil passos que dei chegarem para se fazer, em memória, história, perdas e danos.

As verdades re-veladas se turvam nas noites insones, mal dormidas. Os cacos, juntados, se colam em mosaico. No ano que passou, fui roubado. Roubaram o moleskine com todas as minhas anotações sobre o Caminho, as pessoas, os endereços, as reflexões poéticas, os lembretes.

Lembretes roubados se tornam esquecimentos no desespero da perda. Nada há a fazer. Desfazer expectativas como desfaço minhas malas. Descobri, desde o primeiro Caminho que preciso de Nada. E só. E hoje, pesarosa mente que mente ao não me deixar dormir.

Vá, se levante, abra sua mochila. Você vai encontrar o que procura.

Sim, o Nada estava lá. Bem juntinho da responsabilidade pela escolha de todas as teclas a serem desveladas em códigos irresponsáveis que nos tragam a Verdade.

Hoje, sem querer, vi uma foto que trazia um quadro pintado na parede da mente. Ele mentia. Retratava uma ideia, que só morava no campo das ideias. Sim. Talvez o livro escondido deva ficar assim, no lugar da mentira. Porque a mentira entre o significante e o significado é mesmo tudo aquilo que provoca dor, perda, dessabor, esquecimento, cheiuras.

Só mesmo no vazio do Nada mora a paz, fonte de toda paciência, pulsão de todo passo, silêncio de toda existência.

 
 
 

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