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  • Writer: Bê Sant'Anna
    Bê Sant'Anna
  • Feb 20
  • 4 min read

fé-eu-caminho

No dia 3 de abril de 2013, parti do Vaticano rumo a Santiago de Compostela para lutar pacificamente contra a alienação parental. Eu levava a foto da minha primeira filha junto à credencial do peregrino, anexada ao documento do Vaticano comprovando que eu era mesmo um peregrino e pedindo ajuda a quem pudesse me dar abrigo.


Com 8 meses minha filha foi levada de Belo Horizonte para Recife sem que eu tivesse conhecimento. E depois disso uma história triste de mágoas e rancor rondou minha existência. Decidi tomar o caminho da paz, já que havia uma clara decisão pelo caminho da guerra ao meu redor. Pedi ajuda a São Francisco de Assis e a Santiago, depois de quase pular da janela de um hotel em Uberlândia, ao receber um email agressivo e ameaçador.


Não é fácil ter uma filha pequena a mais de 2.000 km de distância, sabe? Exercito, diariamente, a entrega, o desapego, a fé, a resiliência, a compaixão. Com pai, chão. Sem, onde pisar?


Piso onde Deus manda. Mesmo que eu não veja o chão. Mesmo que me pareça abismo.

Foi assim quando comecei. Porque naquela noite, ao ser jogado na cama do hotel pela janela - que bateu violentamente por causa de um vento que não deixou que eu a abrisse mais - chorando em desespero, adormeci em oração. E despertei com uma voz que me sussurrava:

– Você não é peregrino? Vá buscar a sua filha.


Decidi sair do Vaticano e reeditar o verdadeiro Caminho de São Francisco, que foi até a Península Ibérica junto ao Frei Bernardo de Quintavalle, um de seus discípulos mais próximos. Claro, descobri essa “coincidência” quando já estava em peregrinação. No livro Eu Caminho, 2.500 km em busca de mim mesmo - do Vaticano a Santiago de Compostela em 88 dias, que lancei em 2019, comento que “coincidência” é só um outro nome de Deus. E acredito muito nisso.


A fé que me move é a mesma. Daqui a 3 dias, minha primeira filha faz 15 anos. E confesso que minha mais difícil peregrinação ainda não fiz. Não consegui. Eis a minha confissão.


Resolvi peregrinar pelos caminhos da harmonia e melodia e aprender 15 músicas no piano para tocar na data dos 15 anos de minha filha. Não consegui cumprir. Motivos tive para isso. Me mudei para Portugal, um doutorado, uma peregrinação no Japão, uma nova filha que chegou. Desculpas tive aos montes para esconder o mais difícil: tenho muito medo de tentar. Porque essa peregrinação não é como as outras. Ela não é exclusivamente para a minha filha, ou uma peregrinação em doação para as outras pessoas, pelos pedidos de outras pessoas, como já fiz duas vezes. Essas anteriores, com todas as dificuldades, com todos os desafios, não tinham um caráter pessoal e particular como esta peregrinação musical. Esta demanda mais do que a fé ou a resiliência. Demanda um encontro com o próprio espelho.


Daqui a 3 dias, não vou abraçar minha filha. Não porque eu não queira. Ela quase não me atende ao telefone. Quase não responde à irmã. Não me liga no Natal, não me ligou no Réveillon. E também não atendeu minhas chamadas. Não me ligou nem quando eu fiz 50 anos e não atendeu quando eu liguei na data do meu aniversário. Tendo ela menos que 26 anos, quando o cérebro está finalmente formado, não credito a ela toda a responsabilidade da falta de respeito. Tendo ela menos que 15 anos, não credito a ela completamente a falta de educação. E não acho justo creditar a mim, se não consigo acessá-la para transmitir meus valores.


Fui nas reuniões de pais que pude. Tentei o que estava ao meu alcance. Infelizmente, ela só esteve em Portugal quando a irmã nasceu, não foi por falta de convite nos 6 anos subsequentes. Todas as férias que conseguimos encontrar, somente tive êxito numa marcação de 10 dias na praia, mas dos 10 ela dormiu 8 dias com a mãe. Nunca passou sequer uma semana comigo sem a mãe. Não por falta de convite, de pedido, de súplica. A “Guarda Compartilhada” tem esse nome por um motivo. Mas seu significado tanto do dicionário quanto do bom-senso são diferentes do que eu venho experimentando há 15 anos.


Uma vez, consegui convencer minha mãe a ir na primeira apresentação de ballet da minha filha, em Recife. Chegando lá, minha mãe sofreu o mais ríspido acolhimento de toda a sua vida: os parentes maternos de minha filha desconsideraram sua presença, sequer cumprimentaram a avó de Beatriz por educação. Ela, idosa, nunca tinha se sentido tão mal tratada, em toda a vida. Logo minha mãe, arte-educadora, que alfabetizava os caseiros da região de São Sebastião das Águas Claras e dava aulas de artes para as crianças carentes de oportunidades das Matas do Engenho da região de Nova Lima. Curioso saber que a mãe de Beatriz sempre foi tratada não com respeito, mas com carinho por cada um de nós, da minha família. Aliás, o avô dela sequer me cumprimentou em nenhum dos aniversários de minha filha em que estive presente, mesmo depois de eu ajoelhar em sua frente, literalmente - atitude que meus pais condenaram, veementemente.


Se Jesus fez isso, por que eu não haveria de fazê-lo? - perguntei aos dois.


Assim é a fé. O que me faz caminhar mais de 2.500 km a pé para dizer a ela que sou seu pai, é uma mistura de fé e amor incondicional. E incondicional significa o seguinte: eu não condiciono o meu amor ao amor dela, ao retorno dela, à resposta dela. Na vida não há garantias. Com 8 anos (inacreditavelmente) ela escreveu o poema que tatuei no meu braço: “O Amor - o amor é verdadeiro e a esperança é pura. Meu amor por você é verdadeiro e puro.”


Resolvi amá-la, mesmo que o meio a tenha torcido e retorcido de tal forma, que nunca mais consiga encontrar o caminho de volta. Mesmo assim, passarei o restante dos meus dias a esperar por ela. Porque todo Amor, quando é verdadeiro, não tem fim. E não coloca condições para que exista e persista. O amor é uma escolha. E eu escolhi amá-la.


Sabe, um dia, minha filha da idade que a irmã mais nova tem hoje, se declarou para mim:

– Papai, você é meu brinquedo favorito!


Ela não sabe da minha força. Sequer imagina como fui forjado em minha resiliência depois de milhares de milhares de quilômetros. Mas um dia vai saber. Mesmo que eu aqui já não esteja.

 
 
 

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