Bernardo e a Porta dos Fundos
Em São Paulo, publicitário mata zelador por causa de desentendimento na entrega das cartas e jornais.
No Rio, fotógrafo morre do coração na frente do hospital especializado em cardiologia sem ser atendido.
Em Brasília, jovens são multados em 5.400 reais por dividirem o carro para passear. A multa chegou 4 anos depois.
Em Belo Horizonte, recebo uma declaração de amor:
Quero conhecer Bernardo. Dizer a ele que não assista jornal todas as manhãs. Que continue inteligente, divertido, bem humorado. Que o mundo é bem melhor do que o que aparece nos noticiários. O mundo mesmo, de carne e osso, é cheio de declarações de amor. Mas o que vende é des-graça. O que vende é tristeza. Vivemos um momento em que me parece sintomático ter um quadro no jornal da CBN com o nome "Boa Notícia CBN". E, geralmente, apresenta alguma notícia internacional relacionada a uma descoberta na área da saúde. Será que não temos, aqui, boas notícias, será que boa notícia não vende? Aliás, será que precisa vender? Será que isso mesmo é que é jornalismo? Ou há um vício da cultura da des-graça?
Sabe, Bernardo, eu quero graça. Não só a da Porta dos Fundos, que me diz que estamos precisando rir mais. Quero a graça do abraço. A graça da diversão. A graça da inteligência. A graça da característica de qualquer criança, que, como eu, brincou na escola, sonhou junto, fez amigos, influenciou sonhos. Como você. Porque crianças são assim mesmo. Todas. Porque diversão não é necessariamente entretenimento. Não quero só me entreter, passar o tempo, não ver o tempo passar. Quero sim, ver o tempo passar, mas em ENTUSIASMO pleno. Em diversão, em humor, em alegria, em inteligência, em graça. Quando não há des-graça na televisão, há quase que só entretenimento. A Porta dos Fundos acerta muitas vezes porque critica com inteligência a des-graça, o entretenimento que tem esse sentido raso, o dito politicamente correto, porque também é voz que muitas vezes pede por alguma mudança.
Sabe, Bernardo, queira também a graça. Porque quando é de graça, não precisa vender. Aliás, encontrei a palavra no meio do que vende. Quem sabe assim a gente não vê que isso tem que ter fim?
Agraciado, agradeço a sua mãe que me fez essa declaração de amor fraterno. A mim e a todas as crianças, a todos que querem a graça de graça de sermos entusiasmados por natureza.
Vamos sair juntos pela porta dos fundos do que aí está, Bernardo. E rir sem medida sentados ao sol, na grama do nosso entusiasmo.




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