Bardo
- Bê Sant'Anna
- Apr 11
- 3 min read
O Colo de Deus

Entre o céu e a terra, o colo de Deus.
O conceito encontrado no budismo tibetano denominado “Bardo”, em tradução literal “entre-dois”, designa linguisticamente um estado intermediário. No sânscrito, seu equivalente seria a palavra “antarābhava”. Mas no budismo tibetano assumiu-se um desenvolvimento de significado que amplia seu sentido restrito — o intervalo entre morte e renascimento.
Para o budismo tibetano, qualquer estado de transição em que, de um lado, uma forma de experiência se dissolve e, de outro, outra forma ainda não se estabilizou, podemos chamar Bardo.
Note que, para essa linha, isso serve para a vida, para o sonho, para a meditação e para o processo de morrer - e no budismo tibetano isso foi organizado nos chamados “seis bardos”.
Yongey Mingyur Rinpoche, um dos grandes nomes do budismo tibetano contemporâneo, narra em Apaixonado pelo Mundo (In Love With the World), escrito com Helen Tworkov, sua decisão de abandonar o mosteiro e atravessar o mundo como os antigos monges errantes — por pelo menos 3 anos sem destino, sem garantias, apenas experiência.
Em meio a essa travessia, ele atravessa um episódio extremo: uma quase morte após uma intoxicação. É ali, no limite entre permanecer e partir, que relata ter reconhecido, de forma direta, aquilo que os ensinamentos descrevem como os bardos — o entre a vida e a morte. E narra a sua iluminação através da experiência.
Vale a leitura.
Esse foi meu objeto de estudo no doutorado. Enquanto eu estudava a parte linguística, estudava igualmente, de forma aprofundada, este processo na peregrinação. O que vivi por 88 dias caminhando do Vaticano a Santiago e 44 dias no Japão (fora as outras peregrinações menores) ele viveu por 3 anos na região fronteiriça entre Índia, Nepal e Tibete. Não abandone a leitura, estamos passando para o outro lado.
Mais do que uma descrição do pós-morte, o bardo trata de uma pedagogia da impermanência, em que cada travessia é ao mesmo tempo:
risco e oportunidade,
instabilidade e revelação,
dissolução e renascimento;
Porque, quando perdemos nossas referências habituais, a mente, o corpo, o espírito podem cair na confusão ou reconhecer sua natureza mais profunda, o que ainda não foi revelado.
Chegamos: agora imagine-se um dos quatro astronautas, Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen, na missão Artemis II. Note que o nome Artemis já tem em si relação com o Bardo. Como Artemis é irmã de Apolo, significa que Apolo deu o primeiro passo e Artemis, significa de forma simbólica, o Retorno. Mas o que quero abordar é ainda um pouco mais profundo.
Neste momento, os quatro, na nave, estão justamente no Bardo. No entre–dois. Entre a Terra e a Lua, entre o início da operação e seu sucesso, seu retorno vitorioso, entre o primeiro passo e sua meta, no meio do Caminho. Peregrinos, encontram no Bardo seu motivo e seu propósito, a cada milímetro espacial, no meio do vazio existencial mais concreto que há. Fora da órbita da Terra, no vácuo incompreensível deste caminho possível.
No cerne do nada, tudo pode. É onde Deus se encontra em maior potência. Neste ponto da viagem, da travessia, da peregrinação espacial – do Bardo – estão no colo de Deus. No lugar inimaginável em essência, no onde abstrato real, pois estão lá. No puro movimento. Na poética de sentir e insistir para ultrapassar. Poiética cósmica.
Parece poesia, mas é. Quando percebermos que a impossibilidade de compreensão da deidade é tão palpável quanto o resultado de sua experiência real, nos sentiremos deitados no mesmo colo que estão os astronautas neste mesmo exato momento, no Bardo da vida e da experiência, no inadjetivável colo de Deus.



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