A Pedra Jogada no Lago
- Bê Sant'Anna
- Jul 11
- 3 min read

Somos pedra ou onda?
Recentemente fiz duas postagens no Instagram que têm a ver com esse tema. Uma levantando um lado da abordagem, outra levantando a visão oposta. Aqui faço o nó das duas pontas.
A primeira de minhas postagens foi relativa à importância de percebermos como nossas ações e palavras têm consequências. Aprendi isso desde menino, com meus pais. Talvez uma das frases que eu mais tenha ouvido dos meus pais foi essa: "você é o responsável pelos seus atos, meu filho". Isso é outra reflexão, fica para outro dia. Voltemos à reflexão inicial.
Na primeira postagem eu disse que ajudei um pai na escola da minha filha, que tinha sido surpreendido com uma tempestade. E, como eu tive a sorte de chegar no momento dos primeiros pingos, fui buscar a minha filha com o guarda-chuvas. O que possibilitou que eu levasse o pai, que foi pego de surpresa, ao seu carro com a filha no colo. Caminhei cerca de 100 metros abraçado a este pai que eu não conhecia, cobrindo muito mais a filha e ele próprio do que eu, enquanto minha filha aguardou que eu voltasse para buscá-la. Ele ficou muito agradecido pela gentileza espontânea e para mim foi a coisa mais natural do mundo, óbvio, outra coisa que aprendi com meus pais.
O que sucedeu depois dessa gentileza — que considerei como uma "pedrinha jogada no lago" — foi o tema central da primeira postagem. Eu contei em outra ocasião que fui cercado por um grupo de portugueses quando meu retrovisor bateu no retrovisor de uma "carrinha" — uma caminhoneta de trabalho. Quando pleiteei conversar com o motorista da outra viatura para avaliarmos os danos causados pelo impacto, os outros trabalhadores da construção civil que estavam no interior do veículo saíram pra fora, me cercaram, e começaram a me agredir verbalmente, chegando a dizer "o que você está fazendo aqui"… "volta para sua terra"… e impropérios típicos de quem está vociferando de modo xenofóbico contra um outro que está em menor número. Pois bem, na ocasião, estávamos prestes a escalar para uma briga, mas eu alertei os demais participantes do circo, que sem dúvida, ficaria ruim para todo mundo se chegássemos a subir o tom da discussão para um nível físico. Provavelmente eu poderia sofrer o fato de ser 5 contra 1, mas o que eles não sabiam é que eu tenho algum conhecimento marcial (44 anos de karatê), o que me dá certo equilíbrio e sangue frio em momentos de tensão — e isso pode ser traduzido em alguma vantagem competitiva. Ou seja, eu não ia apanhar sozinho.
Acontece, e aí eu chego onde queria chegar, que quando fui fazer o boletim de ocorrência do acontecido (não, consegui controlar com certo custo e ninguém saiu com sopapos ou pontapés da disputa), para minha total surpresa, quem era o chefe do departamento de polícia na unidade onde me apresentei para solicitar meus direitos cidadãos? Sim, o pai da menina que salvei da chuva. Fui tratado com respeito e cuidado por todos do departamento e comentei no instagram como é que nossas ações e palavras podem reverberar. Uma pedrinha no lago jogada de modo positivo faz ondas positivas, e a gente colhe as benesses do bem, que se torna material, de alguma forma.
Mas o lago também devolve as pedras ruins.
E na outra postagem, eu disse que uma energia que é negativa, também dá ondas, me referindo a um dia de cansaço que acordei cansado, minha filha fez hora no café, saímos atrasados e eu, já puto — me perdoem a palavra —, fui alvo da minha própria pedrinha jogada no lago: fui sair da casa para ela não ver o carro na garagem e me esqueci de fechar a porta de trás do carro, a que estava no meu ponto cego, atrás do motorista, causando para mim um prejuízo ainda não mensurado — porque a porta bateu no portão da garagem e quebrou a máquina do vidro de trás do carro.
Concluo.
Não quero chegar à conclusão de que temos que fazer o bem para que as ondas do lago sejam boas ondas e isso se reflita em benesses para nós mesmos, isso é óbvio ululante. Quero chegar à seguinte pergunta. Quem somos, de fato? A pedra que jogamos no lago, ou as ondas que nos atingem? Porque essa talvez seja a melhor das perguntas a serem descobertas, filosoficamente no que diz respeito à nossa presença no mundo e ao reflexo do mundo em nós mesmos.
– Você, por exemplo. Neste exato momento. Você é uma onda de uma pedra que alguém (ou você mesmo) jogou no lago? Ou você está neste momento com uma pedra na mão para jogar no lago? E que pedra é essa? Já parou para pensar nisso?



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