Ruído do Silêncio
- Bê Sant'Anna
- há 2 horas
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— Vamos fazer o Caminho de Santiago?
Essa foi a pergunta que Ramiro Maia me fez no réveillon de 2008 para 2009, enquanto caminhávamos pela praia em Trancoso por volta das 11 da noite, sob um céu estrelado e na areia molhada.
Eu respondi com uma pergunta:
— Será?
— Você já está fazendo e não sabe. - disse ele.
Era verdade. Mas somente descobri isso meses mais tarde, quando colocamos os nossos pés em Roncesvalles e de lá iniciamos a jornada de 830 km segundo meu GPS de pulso até Santiago de Compostela.
O plano era sair de Saint Jean Pied-de-Port, mas a Via Napoleônica estava fechada e nos aconselharam a iniciar dali mesmo a jornada, porque uma etapa a mais, uma a menos não faria diferença, sendo que o mau tempo tinha feito os bombeiros impedirem a passagem dos peregrinos pela rota no meio da montanha. Inexperientes, ouvimos as recomendações.
Fato é que ouvi a pergunta do meu amigo, e naquele mesmo ano os Últimos Templários, alcunha que nos demos, iniciaram sua jornada alegre e sem finalidade na segunda quinzena de setembro, depois do aniversário do Ramiro. Meses antes, iniciamos a nossa preparação. Começamos a procurar na internet algumas informações.
Procurei meu primo distante, Maki, quem havia feito o Caminho no princípio dos anos oitenta, antes mesmo do Paulo Coelho, quando o Caminho sequer contava com a estrutura de hoje, tinha pouquíssimos albergues, e o que existia eram os hospitais de peregrinos paroquiais. Conversamos com ele, que nos deu algumas dicas, fomos a uma loja de trekking e sentamos com um escalador que tinha muita experiência para trocar ideia. Em seu currículo, constava cursos de sobrevivência, primeiros socorros, expedições de acampamento em vários pontos ermos no Brasil. Foi ele quem nos ensinou como regular a mochila, qual o seu tamanho ideal, o que levar e o que não levar, dicas importantes e preciosas que me lembro até hoje.
“Um peso a mais” passou a ser nosso mantra. Ele que primeiro nos explicou o que representava 100, 200 gramas aqui, que se somam com mais 100, 200 gramas ali, e daqui a pouco, você está carregando mais de um quilo em excesso. Carregar um quilo a mais durante 8, 10 horas faz uma diferença absurda, e durante 8, 10 horas por 30 dias, ainda mais, muito mais! E muitos peregrinos não têm essa consciência exata.
A história é longa e não cabe num texto. Mas desse ponto, no início da jornada, uma coisa muito forte ficou, que gostaria de compartilhar aqui com você. Compramos todos os equipamentos e nossa mochila estava pronta. Faríamos o primeiro treino com nossas botas, as roupas de caminhada, a mochila completa.
Nos encontramos cedo, às 6 e meia da manhã. E saímos da porta da casa dos meus pais. Conversávamos alegremente nesses primeiros quilômetros, em um diálogo interessante cheio de perguntas e respostas de ambos os lados quando, de repente, um breve silêncio se fez sentir. Um silêncio breve que pareceu uma eternidade.
Ramiro, sempre muito espirituoso, cortou o silêncio com uma de suas perguntas constrangedoras e geniais:
— E aí, Bernardo? Está preparado para a falta de assunto no Caminho de Santiago?
Eu quase fiz xixi na calça de tanto rir, porque eu tinha percebido o silêncio sepulcral que tinha gerado um incômodo incomum entre nós, amigos, irmãos parceiros de longa data.
E hoje, lembro desse dia de modo cristalino. E percebo o quanto foi genial essa pergunta. E própria, e profunda. Mesmo sendo em tom de piada de quinta série.
Pergunto: se o mundo silenciasse por um dia, você suportaria a própria mente?
Sim, eu sei. As pessoas, via de regra, não fazem o Caminho em silêncio, conversam com outros peregrinos durante a caminhada, levam o celular (ou telemóvel) para ouvirem música com um fone de ouvido enquanto caminham. E, acredite, isso muda completamente, sobremaneira, a experiência de peregrinação. Porque o ruído do silêncio pode ser ensurdecedor. No silêncio, podemos, inclusive, escutar o nosso coração enquanto caminhamos. O que muitas vezes, é ainda mais perigoso do que escutar a nossa mente. Quando o silêncio grita alto, é difícil dar um passo sequer sem a nossa nua companhia.
Talvez seja por isso que tanta gente sinta o chamado do Caminho. Porque em algum momento da vida todos nós precisamos descobrir se conseguimos caminhar apenas com os nossos próprios pensamentos.
E caminhar pelado é para poucos. Muito poucos.



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