Lamparina
- Bê Sant'Anna
- 14 de fev.
- 4 min de leitura

O livro “A Lamparina Escondida – Histórias de 25 séculos de mulheres despertas” - Editado por Florence Caplow e Susan Moon - foi o livro escolhido no segundo semestre pela minha Sensei do budismo zen, Monja Simone Keisen. Pareceu-me bem feita a coordenação de tradução para oportuguês brasileiro pela Monja Waho Degenszajn. Sabe, participo deste grupo desde não sei quando…, mas amo estudar com as meninas do grupo - e é um grupo de cerca de 20 mulheres e 3 homens. Houve época, inclusive, em que eu era o único homem - quando estudávamos “Mulheres que correm com os lobos”, de Clarissa Pinkola Estés - outro livro essencialmente feminino, que fala de mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem.
No meu caminho de descoberta e aprendizagem do feminino, esse livro também fez todo o sentido. Já fiz ballet clássico durante um ano e meio, já aprendi a bordar para adornar um vestido para minha primeira filha, e depois uma toalha de mesa com as mulheres da família, venho estudando esses textos iniciáticos e filosóficos femininos há um bom tempo. Como pai de 2 meninas, como marido de uma mulher do quilate da minha, isso faz cada vez mais sentido. E se torna quase uma obrigação. E tenha paciência com minha masculinidade, na minha costura textual vou dizer o porquê desse esforço.
O título desse livro, “A Lamparina Escondida” já é, em si, um koan. Por meio dessa imagem simples e profunda: uma lamparina não é o sol nem o relâmpago; seu brilho não ofusca, mas ela existe para atravessar toda a noite. O título sugere uma pergunta silenciosa: o que acontece com a luz quando ela não é vista? Uma análise rasa confundiria a visibilidade com a existência. Mas a lamparina, mesmo escondida, continua acesa. Talvez seja justamente essa a pró-vocação do livro: perceber que o feminino nunca esteve ausente da história do despertar — esteve, sim, fora do olhar comum. Onde sempre foi e se fez absolutamente necessária.
Nesse sentido, o título funciona como um koan. No Zen, um koan não é um enigma a ser resolvido, mas uma formulação que suspende o pensamento racional habitual e desloca a nossa percepção. O deslocamento é sutil e decisivo: leva cada um de nós a buscar a compreensão, não o entendimento. Precisamos do sentir, do perceber, do que está (escondido) além das palavras para ser incorporado com resposta.
Historicamente, os koans surgem no budismo Chan chinês, entre os séculos VII e IX, e são posteriormente incorporados e sistematizados pelo Zen japonês. A palavra koan (公案) vem do chinês gōng’àn, que designava um “caso público”, um precedente jurídico. No contexto espiritual, passa a significar um “caso exemplar” que não pode ser resolvido pela razão discursiva. É como uma anedota, uma charada, um mistério a ser revelado muitas vezes. O koan não explica nem ensina — ele interrompe. E ao interromper, desloca. O Koan é uma ponte. Você consegue perceber como o Koan e o Haikai são afins?
A linguagem do título também pede escuta. “Lamparina” nomeia uma luz doméstica, contínua, íntima. Diferente do farol ou da luz solar, ela não se impõe ao ambiente; ela nos fala de acolhimento e bem estar. Iluminar, aqui, não é expor nem dominar, mas permitir ver o próximo, o gesto. Essa qualidade da luz já aponta para um regime simbólico distinto daquele da visibilidade pública, do espetáculo ou da conquista. Energias muito mais masculinas. Trata-se de uma luz que sustenta, não que compete. Percebe a complementaridade?
É nesse ponto que um dado etimológico se torna revelador. As palavras culto e oculto compartilham a mesma raiz latina, colere, que significa cuidar, cultivar, honrar. O que é oculto, na origem, não é o que foi desprezado, mas o que foi retirado do uso comum, justamente, por ser precioso. O tesouro é protegido. A relíquia é bem guardada. Sob essa chave, esconder o feminino não aparece apenas como gesto de negação, mas também — em muitos contextos — como tentativa de preservação diante do olhar vulgar, incapaz de reconhecer valor sem possuir. Outra energia masculina que vem do cuidar…
Essa ambiguidade se aprofunda quando observamos a palavra zelo, cuja origem etimológica está ligada ao ciúme. Zelar é cuidar intensamente, mas também desejar exclusivamente para si. Aqui, a linha é tênue e perigosa… O masculino, historicamente, assume muitas vezes o papel da proteção — mas quando o zelo ultrapassa a justa medida, ele se converte em aprisionamento. Eis a disfunção, que leva ao estopim. Aquilo que deveria ser guardado para florescer passa a ser retido por medo de perda. O cuidado, quando exagerado, se torna controle. O cuidado degenera em posse.
Talvez o gesto do nosso tempo não seja o de “acender” a lamparina, como se ela estivesse apagada, mas o de discernir. Discernir quando o ocultamento protegeu a chama — e quando passou a sufocá-la. Meu exercício como pai e como esposo é esse. Honrar e cuidar das lamparinas sem apagá-las ou escondê-las. Mas sem me esquecer da preciosidade, da riqueza e importância de sua luz. As noites têm sido longas.
Retornamos ao início, como todo koan verdadeiro. Se a lamparina esteve escondida por tanto tempo, a pergunta que permanece não é apenas histórica, mas íntima. Onde seguimos confundindo cuidado com posse? Onde acreditamos proteger quando, na verdade, restringimos? Acho (só acho) que o feminino nunca faltou ao mundo. O desafio é mesmo aprender a honrar essa luz sem escondê-la — e sem reduzi-la ao olhar vulgar. Como todo Caminho, é sempre um aprendizado…



Comentários