Comparação Como Metáfora
- Bê Sant'Anna
- 14 de mar.
- 3 min de leitura

Não é tão difícil escolher temas que se relacionam ao Caminho de Santiago. Porque existe uma comparação óbvia com o percurso da vida. A essa comparação podemos dar o nome de metáfora.
A metáfora, como você sabe, é uma figura de linguagem que estabelece uma comparação implícita, tácita, subjetiva e direta entre dois objetos de análise, com base numa relação de semelhança reconhecível, sem que a gente precise usar nenhum conectivo comparativo. O conectivo comparativo é, por exemplo, um “parece”, um “como”. Palavras usadas para estabelecer a ponte comparativa.
Se o Caminho é metáfora da vida, o peregrino é metáfora do sujeito. Aqui começa entrar algo interessante, filosoficamente, quando começamos a pensar em termos metafóricos (e portanto, comparativos) sobre este tema.
Você sabe: o processo de alteridade tem substancialmente a ver com a construção do sujeito. Nós, como seres humanos, muito nos baseamos no outro para a identificação pessoal. Digo identificação, mas o mais correto seria dizer construção, desenvolvimento, formação etc. Paradoxalmente, me comparo ao outro para saber quem sou. O que sou. Talvez, como sou. Em uma perspectiva materialista eu sou a partir de não ser o outro. Temos aí uma comparação.
E interessante pensar no tanto que, ao querermos ser aceitos, nos tornamos parecidos ao próximo. Mesmo não sendo. Daí, temos o gosto, o jeito, a fala, os trejeitos, uma série de artifícios comunicativos e culturais que tentam nos aproximar com o objetivo de estarmos aptos a participar do grupo que aquele outro participa. Porque não é exatamente fácil ser só. Assim como não é fácil ser e só.
Eu, quando penso em comparação, hoje, com 52 anos de idade, me lembro que só devo me comparar com o Bernardo de ontem. Porque, segundo minha meta - e meta no sentido não de chegar, mas de atravessar o objetivo (conceito que trabalhei em uma das aulas gratuitas que faço nas quartas e disponibilizo no YouTube e na publicação do blog Certeza) - eu somente preciso ser melhor hoje. Porque sendo melhor hoje, todos os dias, eu terei, ao longo do tempo, selado o melhor que posso ser como Bernardo nesta vida, neste tempo, nesse caminho.
Faço uma pausa nessa linha de raciocínio meio confusa, meio filosófica, para contar uma “anedota”, ou um Koan, se formos familiarizados com o oriente. Um monge caminhava com seu discípulo, quando o discípulo pôs a questão:
- Mestre, como devemos tratar os outros?
E o mestre respondeu:
- Não existem os outros.
Pois bem. Essa é uma visão zen, que estipula, segundo essa história clássica e famosa, que somos todos um. Claro, isso é de difícil percepção racional. Somente podemos alcançar a complexidade dessa natureza, se formos capazes de nos deslocar do raciocínio puramente ligado ao intelecto, para uma análise ligada aos aspectos sensíveis e imateriais, energéticos, inefáveis da existência, enfim - não sei exatamente como resumir isso em palavras num texto.
Jogo essa perspectiva quebrando a linha anterior de raciocínio para comparar o Caminho de Santiago de uns, com o Caminho de Santiago de outros. A vida de uns, com a vida de outros. Talvez, apesar de sermos um, mesmo na nossa unicidade encontramos multifacetadas experiências de ser e sentir. De viver e insistir. De sonhar e de amar. De entender e compreender. De se apaixonar e de deixar ir. Quão complexo é o ser humano e seu Caminho?
Vivemos, morremos, vivemos novamente, desejamos. Quantos Bernardos existem e persistem? Quantos vão ser lembrados, quantos vão ser esquecidos? E você?
Às vezes, me lembro, forçosamente, que a comparação somente existe, se existe o tempo, a linha do tempo, como a concebemos política e socialmente. Porque, se o tempo como pensamos não existir, existiria a comparação? Mesmo que fosse com a gente mesmo? … porque, se somente existir o agora, como posso ser melhor do que já sou? Será que meu Caminho pode ser melhor do que é? Será que minha vida já não é o melhor que pode ser? E o que estou fazendo agora em relação ao que é?
Em vez de comparar, que significa parar junto, confrontar, o melhor é seguir junto, amparar, sustentar.
É isso. Eis uma diferença na metáfora entre a vida e o Caminho. Na vida, a gente compara - para junto, confronta. No Caminho de Santiago, a gente acompanha - segue junto, ampara. Sei que é um assunto amplo para discutir em poucas linhas. Mas posso continuar a pensar um pouco mais sobre ele, quando terminar a leitura.



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