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Tédio

  • Foto do escritor: Bê Sant'Anna
    Bê Sant'Anna
  • 28 de fev.
  • 4 min de leitura

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Desconforto do vazio ou colo divino?


Antes do filósofo Zygmunt Bauman lançar seu livro sobre a Modernidade Líquida, por volta de 2017, eu já havia escrito alguns textos sobre isso. Outro dia, fiz um reels no Instagram contando que defendi uma ideia que o orientador do meu primeiro mestrado bombou. E somente depois que descobri um livro do Umberto Eco falando a mesma coisa (entre aspas, claro), recebi algum crédito para a minha ideia. Ah, você está querendo se fazer de brilhante porque se comparou a Umberto Eco ou a Zygmunt Bauman. Não, na verdade não. Estou querendo defender um ponto justamente com o exemplo de uma pessoa comum, tenha paciência e aguarde.


Veja que não é mentira. A letra da música “Vá ao Home Theatre, mas não me chame”, que tem letra minha e música do querido amigo Vander Lee, gravada em CD em 2008, aborda esse tópico - “eu lembro do remoto controle/ ligado à nossa satisfação/ ver Narizinho, Cuca e Pedrinho/ a chama-da-da televisão/ um dia eu disse que tô ligado/ um dia eu disse que tá na mão/ mesmo sem ter me sintonizado/ no sofazinho/ na estação/ o cabo entrando pede licença/ não adianta antena em pé/ saiu pela culatra a imagem/ só pega agora com grana e fé/ seu telecurso tem pipoca, menino, cachorro, coca/ na vida o VIDEOSHOW dá a moda/ Gugu-dadá–gugu me incomoda/ Televi-zona organizada/ Organizando a macacada/ mancando eu compro a polegada/ Assisto tudo e não vejo nada-da-dada.” Falta o refrão, mas não importa, para o que tento dizer aqui.


Essa foi uma crítica à contemporaneidade (da época) que incita o consumo exagerado e apresenta na forma mercantil de lidar com as relações, o vazio do entretenimento fútil imposto. A TV a cabo é quem nos “desflorava” à época, pedindo licença!, como diz à música. Ainda hoje e cada vez mais, somos violados pela mídia e o trocadilho do ‘controle-remoto’ dar lugar ao ‘remoto controle’ deixa óbvia a mudança de paradigma em uma sociedade que coloca o consumo como seu principal balizador. E isso se reflete, inclusive, nas relações. Fúteis, rasas, descartáveis. Bem a essência do que trata o Bauman. E não foi somente nesse texto poético, musicado por Vander Lee, que escrevi sobre isso. 


À mercê das mesmas influências, segundo a teoria do Zeitgeist (o ‘espírito da época’ burilada por Hegel) qualquer um pode perceber as influências do tempo em que vivemos. Os marketeiros estadunidenses são ainda melhores que os filósofos para falar o que todo mundo já vive, já sente e já sabe, com uma diferença básica: dar um nome vendável e lucrar muito com isso. Os filósofos se diferem porque, muitas das vezes, ao nominar, qualificam ou caracterizam. Mas não são eles os únicos a perceberem o que vai no desconforto da maioria.


Nesse caso, falo especificamente do desconforto do vazio.


Interessante que esse vazio é paradoxal: a percepção de vazio pode ser identificada quando estamos sem bateria no celular ou pode ser identificada quando estamos imersos no celular, no remoto controle das mídias sociais. 


Já viveu as duas? Qual vazio é mais desconfortável? Têm-se aí a pergunta-chave:

Por que o silêncio do Imediato se transforma em incômodo? E coloco Imediato aqui com letra maiúscula de propósito. Uma instância de qualificação. O Imediato se tornou quase uma entidade em nosso mundo contemporâneo - se não satisfaço meu Imediato, é simples: rolo a tela do celular ou telemóvel com meu indicador. A busca pelo prazer imediato (mesmo que inconsciente) nos leva a colocar o Imediato no pedestal da vida. No altar do Tempo.


O tédio não é, exatamente, falta de atividade — é falta de fuga. Arthur Schopenhauer já nos avisou que “A vida oscila, como um pêndulo, entre a dor e o tédio.” Mas ultimamente, em vez de lidar com a dor, tentamos apagá-la buscando um videozinho mais engraçado ou mais curioso, ou que “prenda mais a minha atenção” para que eu possa fugir com mais prazer. Para Schopenhauer, quando desejamos algo e não temos, sofremos. Quando conseguimos e o desejo cessa, surge o tédio. Eu penso que se Schopenhauer vivesse hoje, ele faria uma adaptação a este pensamento, colocando o tédio como a ponte que nos leva ao doloroso trabalho de lidar com a dor, de enfrentamento com a realidade.


O tédio revela a estrutura da vontade humana — sempre inquieta. É como se o desejo sumisse por algum tempo, e ficássemos sem setas amarelas, ou seja, sem saber exatamente para onde ir. Note que esse texto já está longo e, provavelmente, você está querendo desistir antes de acabar - porque perdeu o hábito de atravessar a ponte que leva ao encontro com a dor. E precisamos ter disciplina na decisão de trabalhar quem somos, quem queremos nos tornar.


Está quase, não largue agora: a palavra “tédio” vem do latim taedium, que significa “aversão”, “desgaste”, “fastio”, “repulsa” e com a seguinte curiosidade, bem interessante:


Em latim, taedet era um verbo impessoal. Dizia-se: me taedet — “isso me causa aversão”. Ou seja, o tédio não era “eu estou entediado”. Era “algo me provoca desgaste”. Isso revela que o tédio era visto como reação ao mundo — não como estado psicológico interno isolado. 


O que nos leva a pensar que hoje talvez o tédio não seja causado pelo mundo. Talvez seja causado pelo encontro com nós mesmos. Porque quando não temos o estímulo da tela, o espelho aparece, invariavelmente. No Zen, o vazio não é problema e o silêncio não nos ameaça. É onde começa a ação de observação. O trabalho de olhar para si mesmo e lapidar. Isso é prática. Essa visão dicotômica entre ocidente e oriente mostra uma única moeda, interessante, e a mesma. Uma que necessita a sua (a nossa) escolha. Se você não pode ficar 20 minutos com você mesmo, o que você está evitando? O tédio ou você?


Vou contar um segredo. Quando em 2013 caminhei por 10 a 12 horas, todos os dias, durante 88 dias, descobri que o vazio é, na verdade, o colo de Deus. Pense, ou melhor, sinta. Porque é no vazio que tudo pode brotar, surgir, nascer, crescer, florescer, frutificar. Isso não combina mais com Deus? Isso quer dizer que toda vez que me deparo com o vazio sei que Deus me pegou em seu colo. É assim que o desconforto vai embora. E a ponte do tédio perde seu alicerce e é levada pelo caudaloso rio do conforto-colo divino.


 
 
 

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