Orgulho
- Bê Sant'Anna
- 24 de jan.
- 3 min de leitura

De Roma até Palombara Sabina são 39 quilômetros a pé.
Era a primeira etapa da minha peregrinação que saía do Vaticano e ia até Santiago de Compostela, mas não na rota mais curta. Passava por Assis e Chiusi della Verna, pontos históricos importantes na vida de São Francisco de Assis.
Na Itália foi sempre assim. Eu caminhava geralmente quarenta, quarenta e poucos quilômetros e, ao chegar nas bordas da cidade, conseguia ver a igreja, exatamente no ponto mais alto do morro, e a cidade inteira construída em torno dela. Percebi que essa estratégia era clara. Isso ajudava no reconhecimento, falava de superioridade, dificultava os saqueadores, ou seja, uma estratégia de comunicação não verbal ou escrita, mas que dizia muito na idade média.
Em resumo, eu andava cerca de 40 km e, quando chegava, andava mais pra subir os morros até encontrar a igreja principal da cidade.
Meu ritual passou a ser o seguinte: eu caminhava, chegava na cidade destino, procurava onde era a igreja, via a missa, procurava o padre, pedia ajuda, e caso negativo, procurava alguma pousada para me abrigar.
Justo no primeiro dia, ao chegar em Palombara Sabina, subi até a igreja Collegiata di San Biagio, onde estava por começar uma missa, que assisti mais ajoelhado do que sentado, por causa do cansaço e dores, já no primeiro dia. Ao fim da missa, encontrei o padre, que estava com algumas pessoas. Pedi ajuda.
Depois que ele me disse que não poderia ajudar com minha estadia, que teria que procurar na praça onde existia uma hospedagem, um senhor da comunidade tirou a carteira, abriu e tirou de lá algumas notas de 50 e 20 euros. Tenho certeza que dariam para pagar alguns dias de hospedagem e alimentação.
No entanto, recusei.
Na minha cabeça, eu já tinha feito todo o planejamento, tinha vendido meus bens no Brasil para a peregrinação (um carro e uma moto) e, portanto, estava com dinheiro suficiente. Na minha cabeça, eu quis ser delicado com o senhor, já que o dinheiro contado para os 3 meses de peregrinação estava reservado. Agradeci e recusei.
Me lembro até hoje do semblante de decepção.
Foi nessa peregrinação, do Vaticano a Santiago de Compostela em 88 dias, que compreendi uma coisa muito importante: só sabe dar quem sabe receber.
E depois desse dia, isso passou a ser um mantra para mim. Porque percebi, no dia seguinte, meditando sobre o que tinha acontecido, uma coisa triste. Que eu tinha tirado a possibilidade daquele senhor de ir comigo.
O que ele queria era ir comigo.
De algum modo. De alguma maneira, nem que fosse apoiando, da maneira que ele conseguia. E isso mudou substancialmente o modo como passei a ver a doação.
Anos depois, em 2019, o monge que me convidou para ir peregrinar também em doação, mas em Shikoku, no Japão, começou as instruções para a minha peregrinação desta maneira: “sua primeira lição será aprender a pedir. Vocês, ocidentais, acham que pedir é uma atitude menor. Que quem pede está em condição de subserviência. Você vai aprender a dar a oportunidade a todos aqueles que querem pedir por uma peregrinação e colaborar com ela. Uns vão dar apenas seus pedidos de oração. Outros, vão colaborar com um café. Outros com estadias, outros com milhas aéreas. Mas todos juntos vão fazer com que você peregrine por eles. E você vai proporcionar isso a cada um deles. Que aquela pessoa, junto a seu pedido, vá contigo.”
Acho que temos bons motivos para caminhar em silêncio e refletir um pouco.