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Interrogação

  • Foto do escritor: BĆŖ Sant'Anna
    BĆŖ Sant'Anna
  • 4 de jan.
  • 2 min de leitura

– Vamos fazer o Caminho de Santiago?

– SerĆ”?

– VocĆŖ jĆ” estĆ” fazendo e nĆ£o sabe…



Esse diĆ”logo precedeu a minha partida. Era o dia 31 de dezembro de 2008, e Ramiro e eu caminhĆ”vamos na areia molhada pelo mar fino em um breu de lua nova. As estrelas refletidas na lĆ¢mina d'Ć”gua nos faziam a impressĆ£o de que caminhĆ”vamos no Campo das Estrelas. Na Ć©poca, eu nĆ£o sabia que a etimologia de Compostela me levava ao ā€œCampo das Estrelasā€. Nove meses depois irĆ­amos pegar o aviĆ£o da TAP de nome Pedro Ɓlvares Cabral - eles tĆŖm isso de batizar o aviĆ£o e escrever na carenagem seu nome - e atravessar o oceano rumo inverso para, de Portugal fazer escala para Madrid, e de lĆ” Pamplona. Mais um Ć“nibus e chegamos em Roncesvalles, jĆ” depois da fronteira com a FranƧa, de onde partirĆ­amos no dia seguinte para percorrer 830 km, segundo o Garmin de pulso.

A chuva intensa e a névoa - conforme nos disseram - tinham feito os bombeiros fecharem a rota napoleÓnica, usada pela mata para atravessar os Pirineus (e a fronteira) de Saint-Jean-Pied-de-Port a Roncesvalles. Dormimos em um contêiner.

No dia seguinte, um frio que eu não conhecia.

E uma interrogação sem pergunta na minha cabeça.

(ƀs vezes, só precisamos entender que nĆ£o passa pelo entendimento, mas somente pelos sentidos. Por isso, nĆ£o acessamos pela via da razĆ£o.)

Se tem uma coisa que Ć© possĆ­vel aprender nos Caminhos de Santiago Ć© isso. O reconhecimento de que compreensĆ£o Ć© (ou pode ser) diferente de entendimento. Existe uma separação possĆ­vel entre o que sentimos e o que racionalizamos. Somente 14 anos depois eu ā€œcompreendiā€ o que eu tinha racionalizado pela aprendizagem ainda neste primeiro Caminho – que existe um exercĆ­cio possĆ­vel de se fazer para que a experiĆŖncia sensĆ­vel se desconecte do que Ć© racionalizado por nós. Foi no meu primeiro Vipassana, de 10 dias. LĆ”, fui apresentado a uma tĆ©cnica especĆ­fica que, segundo eles, tinha sido a tĆ©cnica utilizada por Siddharta Gautama, o Buda, para atingir seu estado iluminado. E pasmem - parece que funciona. Em 10 dias de 11 horas de meditação diĆ”ria guiada pela tĆ©cnica, tĆŖm-se a ā€œcompreensĆ£oā€ (ou seja, sente-se) do descolamento do julgamento racional sobre aquilo que estamos sentindo, aquilo que estamos percebemos, aquilo que estamos experienciando.

No Caminho de Santiago, vivemos uma interrogação sem pergunta.

Isso é de difícil compreensão para quem ainda não partiu em caminhada.

Assim como hÔ interrogação sem pergunta, hÔ exclamação sem afirmação. Sem uma frase racional afirmativa que defina (ou leve) a exclamação.

O arrebatamento nem sempre Ć© conduzido pelo racional.

Ɖ como a pergunta do filme ā€œContatoā€ em que a cientista vivida por Jodie Foster dialoga com o pastor vivido por Matthew McConaughey. Ele pergunta - VocĆŖ ama o seu pai? E com a afirmação dela, ele responde - Prove.

O amor não se prova. Se prova.

Provar os pĆ©s pisando nas estrelas Ć© banhar nĆ£o somente a planta dos pĆ©s. Ɖ mergulhar o corpo inteiro na interrogação sem pergunta.

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