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Excesso Como Superação

  • Foto do escritor: Bê Sant'Anna
    Bê Sant'Anna
  • 7 de mar.
  • 3 min de leitura

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“Tudo em exagero é chato, meu filho.” - dizia minha mãe, volta e meia. 


‘Excesso’ vem do latim excessus, derivado do verbo excedere: ex- significa “para fora”, enquanto cedere significa “ir, caminhar, ceder”. Excedere significa literalmente “ir além”, “ultrapassar limites”.


Logo, ‘excesso’ é aquilo que ultrapassa uma medida adequada. No conceito latino, a transgressão e o desvio também encontram leito na cama do conceito, e acho que minha mãe sempre quis se referir a isso. Quando o padrão esperado foge, o que fica?


Sim, ‘exagero’ não é ‘excesso’, mas comecei com ‘excesso’ porque quero voltar nesse ponto. Aliás, foi por isso que coloquei este o nome no texto.


‘Exagero’, por sua vez, vem do latim exaggerare: o ex- continua sendo “para fora”, mas o  aggerare se refere a “amontoar”, “acumular”. Ou seja, “amontoar além do necessário”.

Nesse caso, minha mãe fazia essa ressalva para que eu não “tornasse maior do que realmente é.” 


Diferente de ‘excesso’, que é quantitativo, ‘exagero’ é frequentemente qualitativo ou discursivo. Pois bem, para um canceriano, ator, locutor, apresentador, dramático por natureza, a qualidade do exagero e o discurso exagerado levam, frequentemente, à confusão: muita gente acha que estou brigando em vez de defendendo veementemente minha posição. 


Para Aristóteles, a virtude está entre dois vícios: o excesso e a deficiência. Se excesso vem de ex-cedere (“ir para fora”, “ultrapassar”), o seu contrário deve conservar a ideia de movimento em relação a um limite, mas em sentido oposto ou equilibrado. Não exatamente caminhar pra dentro… A justa medida é o caminho do meio entre o excesso e o que falta - no nosso caso, a inércia, o ficar parado, o deixar de agir. Tomás de Aquino, na Suma Teológica, nos alerta que o vício pode ocorrer pelo excesso ou pela deficiência em relação à razão. Faz par com Aristóteles, como pode ver. Já eu, diria que o vício pode ocorrer pelo excesso ou pela deficiência em relação à paixão, ou à emoção, como queira. E suspeito que António Damásio - o neurocientista português que escreveu O Erro de Descartes concordaria comigo. Já leu? Indico.


Para ele, ‘emoção’ é um conjunto de respostas corporais automáticas desencadeadas por um estímulo. Já o ‘sentimento’ seria a nossa percepção mental das alterações corporais causadas pela emoção. Eu, quando exagero, sou tomado pelas emoções. Mas não é o meu sentimento com relação ao meu ímpeto discursivo. Acumular a quantidade de excessos pode ser um exagero, e aí sim, transformar o sentimento em vício.


A emoção pode ocorrer sem que você a perceba claramente. O sentimento pode ser confuso, reinterpretado ou até distorcido. A emoção é objetiva e corporal; o sentimento é subjetivo e representacional. Interessante perceber que é um exercício possível cuidarmos do sentimento. Moldá-lo, muitas vezes. Escolher filtrar ou não aquilo que nos é trazido organicamente pela emoção. Acho mesmo que a emoção pode até nos arrebatar, nos tomar de assalto. Mas é, acredite, possível observar a emoção e escolher o que sentir a partir dela. Desde que foi lançado (em 1996 no Brasil) o livro Inteligência Emocional, de Daniel Goleman, eu iniciei esse exercício consciente. Antes, eu já havia lido Você Pode Curar Sua Vida, de Louise L. Hay, publicado pela primeira vez em 1984. Devo ter lido pouco antes de 1990 (aliás, indico todos). Se não acredita, experimente fazer o ‘Vipassana’. Guardadas as devidas proporções, é isto que é ensinado no curso de 10 dias de meditação, sem conversar, sem trocar olhares, sem estímulos comunicativos e fazendo 11 horas de meditação diária. É uma peregrinação sentado, por 10 dias, e em silêncio.


Confesso, é um soco na boca do estômago. Para dizer o mínimo. Mas você consegue experimentar o artifício, a técnica utilizada por Siddhartha Gautama, o Buda, em seu processo de iluminação. Que tem muito mais a ver com o Caminho do Meio… A extinção do vício - tanto do excesso quanto da falta, para que, quando a emoção aparecer, não seja julgada e jogada pelo seu sentimento, num pote errado, dentro de sua despensa pessoal, no escuro do seu celário interno.


Excesso e exagero, emoção e sentimento. Sabe? Se for para exceder, que seja superar-se sem exagero, sendo tomado pela emoção mas não subjugado pelo sentimento. É assim que tento caminhar, mãe. E você?


 
 
 

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