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Cinta

  • Foto do escritor: Bê Sant'Anna
    Bê Sant'Anna
  • 25 de abr.
  • 2 min de leitura

Quando a cinta aperta, o que afrouxa?


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Imagino que todo mundo conhece essa palavra: cinta. A cinta é aquilo que aperta, que envolve, que ajusta o corpo. Pode ser ortopédica, pós-operatória, pós-parto ou modeladora. Genericamente, é o que serve para segurar, sustentar, o que me fala do que precisa ser domado. A palavra “cinta”, em português, nos fala de contenção. Do que envolve o corpo, que ajusta, que sustenta. A cinta aperta, organiza, mantém no lugar. O que preciso manter no lugar?


Interessante que em português, a fonética às vezes diverge da escrita. 


Se você apenas escuta a palavra, sem ler, ela soa “sinta” - o presente do subjuntivo do verbo sentir. Sim, é imperativo sentir. “cinta” pode soar como “sinta”.


E “sentir” já não é conter. De certo modo, é o contrário. Sentir é abrir para receber e perceber sensações físicas, emoções ou intuições. Tanto o concreto quanto o inefável.


Ao expandirmos o significado para o sentir, encontramos o campo emocional. Você sabe. Sentir é deixar chegar, deixar passar. É permitir que algo atravesse. É, de certo modo, não segurar.


Foi na semana passada, no dia 11 de abril, quando deixamos chegar o sentido e partimos em peregrinação com nossa filha, a mais nova Maria. E por seis dias caminhamos com ela da fortaleza de Valença a Santiago de Compostela, perfazendo cerca de 125 quilômetros.

Seis anos, seis dias. O tempo dela marcando o nosso passo.


Foi rico, simples, natural. Vivo.


Interessante perceber que quando se faz uma peregrinação com uma criança do tamanho da Maria, a família acaba por chamar a atenção dos peregrinos que estão fazendo o Caminho. Não somos mais um grupo, somos uma família com uma menininha de 6 anos peregrina.


Um dos grupos que encontramos caminhava uniformizado de blusas verdes, eles eram 5. Quando passávamos logo reconheciam a Maria, brincavam com ela e riam fácil, deixavam o sentimento chegar, passar e atravessar cada um deles. 


Em um dos encontros, perguntei ao grupo como se dizia “amor” na língua deles.

Foi o mais velho quem respondeu:


“Cinta.”


No mesmo dia, algumas horas depois, poucos quilômetros antes de Santiago, vimos o mesmo grupo parado. Ao lado, a ambulância dos paramédicos. Alguns peregrinos parados, já em oração pelo peregrino mais velho do grupo que estava deitado ao chão, cercado, contido. 


Os paramédicos tentavam reanimá-lo depois de ter sofrido uma parada cardiorrespiratória. Não conseguiram.


O Caminho às vezes não explica. Apenas nos mostra para que possamos processar ao nosso tempo.


Cinta significa amor. Se diz… “tinta”.


Pintei a eternidade de caminhar com Maria.

Sabe? Algumas palavras chegam… e seus significados ficam.




 
 
 

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