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Devir

  • Writer: Bê Sant'Anna
    Bê Sant'Anna
  • Feb 7
  • 3 min read

devir-eu-caminho

Parece que Heráclito puxou o tapete de Parmênides quando instituiu que o “ser que é” passou a “vir a ser”, o “devir”. Para a etimologia, o prefixo “de” nos fala de movimento, enquanto o “venire” nos fala de “vir”- o que leva ao significado “tornar-se”, “chegar a algo que ainda não se é”. A ruptura do conceito estático tornando o homem seu próprio processo define, funda um pensamento novo. É uma observação intuitiva que se baseia, sobretudo, na observação da natureza, da vida. Pergunto: o que está pronto?


O real se define mesmo é pela mudança. Permanecer nada mais é do que ilusão. E é bem interessante, porque a “ilusão do mesmo” dá a sensação de segurança que precisamos para continuar a caminhada.


Basta ver uma criança: todas as vezes que instituímos uma rotina, fica mais fácil ela se balizar. Há uma sensação natural de conforto relativa a isso. Eu, que acho que tenho algum nível de autismo - e acho que todo mundo tem - preciso me estimular com ritos idênticos no dia a dia para não me perder de mim, não me perder do Caminho.


O “ser” vive no campo das ideias. E é no real do devir que a gente ama, a gente erra, aprende, escolhe. Estamos sempre destinados a tornar-nos.


Pode parecer que não, mas existe um padrão que se repete quando alguém faz um exercício do devir tão potente quanto o Caminho de Santiago. O padrão é: a pessoa volta.


Porque há frustração naquele que completa algo que não pode ser completado, não tem fim. Desculpe o Spoiler. Mas não estou aqui para contribuir somente como o confortável, mas com o desconforto que desloca. Afinal, esse texto não é sobre DEVIR?


Perceba o quanto a “escolha” está ligada ao devir. Há uma responsabilidade intrínseca no gesto que molda, que traz, que participa da essência do devir. A experiência humana se baseia em escolher e (para) tornar-nos. Assim seguimos. Talvez por isso a inércia seja tão condenável no processo da existência. Porque dependemos da atitude consciente (escolha) para estarmos, ou melhor, participarmos do fluxo. Até a não escolha é ação. É o que o pensamento oriental chama de Wu Wei, ou a estratégia da não-ação.

Aliás, na filosofia oriental, o devir aparece como impermanência. No budismo, nada possui existência fixa; tudo surge, se transforma e desaparece.


É como o Sa Ta Na Ma (ou Satanama), frequentemente associado à meditação Kirtan Kriya do Kundalini Yoga. A meditação que representa o ciclo da vida: Sa (infinito/nascimento), Ta (vida/existência), Na (morte/transformação) e Ma (renascimento). Manjit, professor de Yoga Kundalini, me presenteou com essa meditação que me acompanhou durante todas as peregrinações. No Vaticano a Santiago, por exemplo, eu começava o dia rezando o terço completo. Depois fazia pelo menos uma hora dessa meditação na sequência. Imagine. O rito do devir como muleta semântica…


O caminhar dá corpo ao devir. Cada passo é mudança; cada dia, processo. O peregrino compreende com o corpo aquilo que a filosofia diz com conceitos: não se chega o mesmo, igual, a lugar algum. Caminhar é aceitar o devir como mestre da vida.


É o rio que só “é” por mudar. É a estrada que se faz nas retas e curvas. É a ponte, que conduz, transcende, atravessa. É o deserto que revela infinitas possibilidades. Cada símbolo imagético conduz ao movimento de sentido.


Comecei o texto perguntando: o que está pronto? Se pensarmos bem, talvez nem nossos conceitos. Se observarmos a vida e estivermos abertos, só estaremos “prontos” quando morrermos, porque… aí, pronto.


Qual a porção do inacabado você vai moldar no dia de hoje?


 
 
 

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Bernardo Moura de Sant'Anna / 50.106.917/0001-43 / Rua Camil Caram, 70 / 201 - Belo Horizonte - MG - 30350-335

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