Atitude
- Bê Sant'Anna
- Jan 18
- 3 min read
“Tenho como meta transcender pela atitude, não pela inércia.” – Livro Eu Caminho, 2.500 km em busca de mim mesmo – do Vaticano a Santiago de Compostela em 88 dias.

Este é um axioma que instituí para mim, depois de caminhar 2.500 km do Vaticano até Santiago de Compostela em 88 dias.
Não, ninguém consegue imaginar o que significa caminhar 2.500 km, nem se já tiver feito os 800, aproximadamente, do Caminho Francês – posso garantir.
Há três anos tomo banhos frios. No outono e inverno aqui de Portugal eu deveria dizer “gelado”, seria bem mais próprio. E confesso que não é fácil. Mas tudo é possível.
Transcender, segundo a etimologia abraça trans = “além de”, “para lá de” e scandere = “subir”, “escalar”, “galgar”. O que quer dizer que pelo sentido literal não há transcendência sem movimento. E, como já disse no Podcast Eu Caminho (acho que algumas vezes) “alma” significa aquilo que move.
Mesmo não sendo bom em matemática, fico com uma equação onde preciso sentir, ser tocado, apaixonar–me pelo movimento da vida. E assim, me desloco para um outro patamar, um outro estado, um outro olhar sobre mim e sobre a minha vida.
É mesmo muito interessante: tem um koan zen budista que eu meio que traduzi, poeticamente, da seguinte maneira para mim, que quero compartilhar com você:
“da margem do lago onde você está,
mova o barco que repousa tranquilo sobre as águas.”
Fato: é impossível, em uma perspectiva materialista. Porque você não consegue mover um barco que está longe de ti, enquanto você está na margem do lago. E esse Koan explora justamente essa questão que parece sem solução da seguinte maneira – somente mudamos o mundo quando mudamos nós mesmos. O que quer dizer que para mudar o barco, muda-se o nosso olhar sobre ele. Ou seja, temos escolha, temos capacidade, está em nossas mãos. Gosto de saber que para mudar o mundo só precisamos mudar nós mesmos (um pensamento forte e poderoso atribuído a Mahatma Gandhi justamente porque é síntese de sua obra. Ou seja, é uma paráfrase).
Cabe distinguirmos três coisas aí. Superação, transformação e transcendência. Superação é vencer um obstáculo. E esse é o aspecto apenas físico de se fazer 2.500 km a pé em 88 dias. Sim, incrível, mas tem uma dimensão. Transformar é mudar de forma, como a própria palavra diz. E isso tem outra dimensão. No entanto, transcender é mudar de nível de sentido. E isso tem tudo a ver com alma. Porque o que move dentro, o que se transforma dentro, o que se supera dentro, atinge o cerne daquilo que não tem sequer matéria. O barco pode continuar o mesmo, mas você já não o é.
Ter como meta o movimento (escolhido por mim) para esse processo de transcendência me fala sobre como esculpir o meu espírito, a minha alma, o meu ser, o meu estar nesse mundo.
A inércia nos diz sobre permanecer na negação da arte ou da habilidade, segundo a etimologia. Ou seja, tudo o que é avesso ao esculpir de si mesmo. Não à toa, para o budismo a inércia é uma forma de ignorância. É mais ou menos como se a inércia repetisse a visão do barco, enquanto a atitude o transformasse. É por isso que o “mesmo” mundo visto por “outro você” nunca vai ser igual ao primeiro.
Assim, caminhar, fazer exercício, tomar banho gelado, acordar cedo todos os dias, correr, estudar… (complete a lista aqui com coisas suas, lembretes icónicos, que fazem de você o avesso da inércia) são jeitos de burilar a forma como você olha o barco que repousa tranquilo sobre as águas. Na transformação estoica, a gente transforma dentro. Talvez, cada uma dessas atitudes seja uma analogia que represente pular no lago e nadar em direção ao barco.
É por este motivo que você pode imaginar, o quanto podemos mudar, de fato, nós mesmos e nosso mundo, ao transcender completamente depois de tantos, tantos e tantos quilômetros caminhados…



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